2026: UMA OPORTUNIDADE PARA SAIR DA CRISE

Da Série Planejamento Democrático (III)

30 DE JANEIRO DE 2026

A crise neste 2026 que vai muito além da econômica exige reflexão sobre a sua natureza, e tomada de decisões hoje para produzir uma mudança verdadeira. Mudança necessária e urgente, dada a dimensão da crise em que se somam e amplificam mutuamente crises de diversas naturezas. É preciso um Estado mais justo e eficiente, tarefa para a criação de consensos e convergências entre os agentes sociais no compasso de um ano de escolhas, o ano eleitoral, muito complicado pelo cenário desenhado pelas novas guerras no mundo. 

Já passamos por momentos semelhantes e saímos de outras crises com lições para atuarmos na crise multifacetada atual, diferente das anteriores pelo ritmo, natureza e dimensão. Crise é oportunidade, como se sabe e pratica há muito tempo, no mundo privado ou no público. Saber sobre as semelhanças e diferenças das crises anteriores ajuda. Ajuda a planejar, inclusive. O último período de democratização pelo o qual o mundo passou foi entre 1989, com a queda do Muro de Berlim, e 2001, com a queda das Tôrres Gêmeas de New York. Com o aprendizado das crises anteriores, no século das guerras como é conhecido o século XX, criou-se a oportunidade para a saída democrática que os países de democracia liberal construiram.

 Texto

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.Uma imagem contendo Site

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Figura 1: Pacto pelo Rio Grande (2006), Conselhos e Manifesto (2026)

- Sobre a crise: apesar da pobreza ter se reduzido de 50% da população mundial desde o término da guerra em 1945 para menos de 10% atualmente, o crescimento ter sido vigoroso e global, e a elevação na longevidade e da expectativa de vida ter sido significativa, o modo de vida que acompanha esses avanços tem produzido uma era de excessos. Excessos trazem retrocessos, seja quanto à sustentabilidade seja quanto à qualidade da convivência social. A melhoria do padrão de vida não tem beneficiado a todos com equidade, nem tem se dado em todos os países. As desigualdades se aprofundam, com sérias consequências (Nota 1) geradas por um ritmo em que se retira mais do que se repõe dos recursos que demoraram milhões de anos para se formar. 

- Sobre semelhanças: a História ensina, e só se repete como tragédia ou como farsa (Karl Marx, 1852).  Nas últimas décadas, como na grande virada para o século XX, novos produtos da Revolução Industrial levam a um boom de consumo e de expansão da mobilidade mundial, e surge a hora das artes florescerem, como o aumento nas publicações indica. Hoje, como naquela virada, pandemias e guerras se repetem e ceifam milhões de vidas. O péssimo acordo de paz que colocou fim à I Grande Guerra (1914/1918) levou os países perdedores ao empobrecimento pelo pagamento insustentável das dívidas de guerra, gerando o rancor que alimentou os “ismos” - fascismo, nazismo e stalinismo - e, com eles, os horrores da II Grande Guerra, com a nova tecnologia trouxe - e traz - a possibilidade de extermínio de boa parte da Humanidade, se usadas as rmas atômicas em nova guerra. Como semelhança, as novas tecnologias ligadas à IA têm trazido um aumento acelerado das desigualdade e, com elas do rancor de eleitores. A derrubada em 2001 das Torres Gêmeas de NY e a resposta ao terrorismo fragilizaram a era da democracia liberal moderna, com a aparente escolha a favor da segurança ao preço do sacrifício de liberdades. 

- Sobre diferenças: ao final da II Grande Guerra (1939/1945) os acordos de paz que, sob uma Nova Ordem Mundial, financiaram a reconstrução da Europa destruída e geraram um ciclo de crescimento global. Permaneceu a divisão do mundo entre um bloco capitalista e outro comunista - a Guerra Fria. Dois eventos desruptivos romperam essa trajetória: em 1971 o presidente Nixon retirou o lastro-ouro do dólar -a moeda forte dos contratos mundiais, e em 1973 e 1979 os países árabes surpreenderam o mundo com os choques do petróleo. A crise mundial que se seguiu então levou à quebra de países, recessão e hiperinflação, até que a Queda do Muro de Berlim em 1989 colocou fim à Guerra Fria.  Com a renegociação dos contratos de dívidas, a aceitação das regras do Consenso de Washington, a criação da União Europeia em 1991, o novo ciclo de globalização e de cooperação internacional, regulada por instituições supracionais, fizeram dos anos 1990 um período de estabilidade monetária e de desenvolvimento e democratização  globais. No Brasil, à mesma época, a transição entre o governo militar e um governo civil foi firmada com o compromisso de realização de uma Constituinte (1988) organizando o Estado Democrático de Direito, e o Plano Real deu sustentação a mudanças que geraram um ciclo de estabilidade e de desenvolvimento.este novo milêncio chega com epidemias e extremismos que se multiplicam pelo mundo. 

- Sobre a nova revolução industrial: a Inteligência Artificial (IA) muda o mundo gerando ao mesmo tempo uma nova economia e um espantoso crescimento das desigualdades, fonte de instabilidades e de descrença nas instituições. Estados se tornam disfuncionais num ciclo de mal estar da civilização (Notas 2 e 3). A crise chega como uma “tempestade perfeita” exigindo escolhas, a tomada de decisões de curto prazo. Aí entra a política. A diferença de velocidade entre as mudanças tecnológicas e a adaptação das instituições é causa principal da crise global. Estados e governos corrompidos mostram-se incapazes de lider com ela e muitas vezes funcionam como agentes ativos do retrocesso. Aprofundam-se as desigualdades sociais e no fosso entre os que muito têm e os que quase nada têm vai sendo o espaço é  ocupado pelo crime organizado, substituindo o Estado em muitas das suas funções, causando corrosiva violência que permeia toda a sociedade. A imprensa e a grande inovação das redes sociais têm sido importantes na divulgação dos fatos como eles são, sendo fator essencial para fundamentar decisões. Planejar é a base para a tomada de decisões que, sem a clareza dos fatos, podem ser equivocadas. Empresas podem falir. Já os governos não. Quando erram, quem paga é a sociedade.  

- Sobre os pilares sociais: violência e escândalos seguem em escabrosa e acelerada sequência. Exemplos da semana: (1) o caso do cão Orelha em Florianópolis e uma juíza considera não terem os adolescentes cometido qualquer crime. (2) o 11º feminicídio e 30 tentativas, cometidos por ex-companheiros, em janeiro no RS, apesar das ações policiais e campanhas para coibir esse tipo de crime. (3) a Presidência da República e a mais alta Corte do país (STF) decretam sigilo eterno para seus gastos - pagos com dinheiro público, e para tudo a que se refere aos mega escândalos do Banco Master e do roubo dos aposentados do INSS. (4) no front externo, em Minnesota a polícia federal ICE executou 2 americanos que registravam pelo celular ações violentas contra imigrantes, e as autoridades afirmam que a causa dos crimes é das vítimas levando a população a sair às ruas para dizer “basta”! (Nota 4).  (5) no Irã a população enfrenta, às custas de milhares de execuções, as barbáries do regime dos aiatolás. (6) no Chile, ministros da Suprema Corte são presos, acusados por crimes como venda de sentenças. 

Quando falha a Justiça, agoniza a Liberdade, bem maior dos estados democráticos. Justiça e Liberdade são valores que sustentam a organização social, mas e aos poucos vão sendo perdidos.

- Sobre iniciativas recentes: organizações se reúnem para planejar 2026. O Manifesto Empreendedor 2026, assinado por diversas entidades, lista 12 eixos de ações propostos para a criação de convergências em torno de políticas públicas para o estado.  O Jornal do Comércio promove um debate para o lançamento do seu inovador Anuário de Investimentos do RS 2025 com dados de todos os projetos realizados e a realizar no RS. O Conselho de Presidentes do Instituto Caldeira promove reunião para debater dentro do seu horizonte de planejamento as perspectivas de mudança neste ano eleitoral de 2026.

Temos inovado muito com a criação de Conselhos, Observatórios, Institutos Privados, experiências governamentais que buscam legitimar a autoridade para além da burocracia estatal, com a participação popular melhorando a qualidade da democracia. Foram várias as experiências de Democracia Deliberativa buscando uma solução consensuada para questões conflituosas; os Orçamentos Participativos definem investimentos; são feitas Consultas Públicas para aprovar reformas (Nota 5). São sementes de boa qualidade que germinam com o decorrer do nosso tempo.

Não é preciso que a crise se aprofunde para trilhar-se o caminho da mudança já em 2026. Ela já está suficientemente profunda. Por ser um ano eleitoral, 2026 é um ano importante para planejar e tomar decisões. Há urgência na formação de consensos para escolher as reformas prioritárias em compromisso de líderes e agentes públicos. É na convergência em torno de uma Agenda Política de Estado que reside a saída. Ao trabalho.


Nota 1: https://www.agazeta.com.br/artigos/rage-bait-quando-a-raiva-sequestra-o-debate-todos-perdem-0126.

Nota 2: https://yeda2024.blogspot.com/2025/07/os-anos-loucos-um-roteiro-ii-julho-de.html.

Nota 3: https://yeda2024.blogspot.com/2025/12/a-busca-pela-verdade-feliz-2026-31-de.html.

Nota 4: https://yeda2024.blogspot.com/2025/05/tempo-e-ciclos-maio-2025-iii-tempo-e.html.

Nota 5: https://yeda2024.blogspot.com/2026/01/2009-coragem-para-inovar-na-educacao-do.html e https://yeda2024.blogspot.com/2025/12/observatorios-para-uma-agenda-2026-5-de.html

Comentários

  1. Comentário sobre o artigo
    “2026: Uma oportunidade para sair da crise” – Yeda Crusius

    O artigo de Yeda Crusius oferece uma reflexão ampla e oportuna sobre a natureza das crises contemporâneas e sobre a necessidade de uma visão de longo prazo para enfrentá-las. Partindo de uma leitura histórica, a autora mostra que momentos de ruptura – como as guerras mundiais, os choques econômicos ou transformações tecnológicas – frequentemente antecederam ciclos de reorganização institucional e avanço econômico. Essa perspectiva histórica reforça a ideia de que crises, embora dolorosas, também carregam potenciais transformadores.

    Um dos méritos do texto é tratar a crise atual como multifacetada: econômica, institucional, social e moral. A autora observa que avanços importantes do último século – como o aumento da longevidade, a redução da pobreza global e o crescimento econômico – coexistem com novas tensões, como desigualdades crescentes, fragilidade das instituições e perda de confiança social.
    Essa leitura ajuda a compreender que o problema contemporâneo não é apenas econômico, mas também político e civilizatório.

    Outro ponto forte é a análise da distância crescente entre a velocidade da tecnologia e a evolução das instituições. Esse descompasso tende a gerar instabilidade e crises de governança, pois os mecanismos políticos e institucionais não acompanham o ritmo das mudanças tecnológicas e sociais.
    Essa observação é particularmente relevante no contexto da chamada nova revolução industrial associada à inteligência artificial.

    O artigo também chama atenção para o papel da política e da liderança pública. Ao enfatizar a necessidade de consensos, convergências e uma agenda de Estado — especialmente em um ano eleitoral — a autora reforça a ideia de que a superação das crises depende menos de diagnósticos isolados e mais de coordenação institucional e compromisso coletivo com reformas estruturais.

    Talvez a principal contribuição do texto seja a defesa do planejamento democrático: a mobilização de instituições, observatórios, conselhos e espaços deliberativos capazes de produzir convergências em torno de um projeto de longo prazo. Essa abordagem procura recuperar a política como instrumento de construção coletiva de futuro, e não apenas como arena de disputas imediatas.

    Em síntese, o artigo provoca o leitor a refletir sobre a crise atual não como um impasse definitivo, mas como um momento de escolha histórica. A mensagem central é clara: crises podem ser pontos de inflexão — desde que lideranças e sociedade assumam responsabilidade e atuem com visão estratégica.

    É um texto que estimula o debate qualificado e convida à ação, lembrando que planejar e construir consensos é condição indispensável para transformar crises em oportunidades de renovação institucional e social

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Agradeço o cuidado da leitura e os comentários, caro Dernizo, que incentivam a divulgação da crônica, o que faço agora por algumas mídias sociais (X e FB).

      Excluir
  2. Cara Yeda, novamente uma crônica de primor enorme e precisão cirúrgica. Este é, de fato, um problema vital, mas cuja solução foi, infelizmente, imposta à população como algo de má-fé e perfídia. A propósito, teci alguns comentários sobre essa percepção de impopularidade neste meu texto: https://compendiumscriptorum.blogspot.com/2026/03/uma-breve-historia-da-luta-brasileira.html

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bom dia.Acabo de postar comentário no texto de seu blog. Obrigada.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog