2026: UMA
OPORTUNIDADE PARA SAIR DA CRISE
SÉRIE PLANEJAMENTO
DEMOCRÁTICO (III)
30 DE
JANEIRO DE 2026
A crise que estamos vivencioando neste 2026 exige reflexão sobre a sua natureza e o agir hoje para uma mudança verdadeira e necessária, dada sua dimensão e de diversas naturezas que se entrelaçam e amplificam mutuamente. É preciso um Estado mais justo e eficiente, tarefa para a criação de consensos e convergências entre os agentes sociais, no compasso de um ano de escolhas, o ano eleitoral. Afinal, crise é oportunidade.
- Sobre a crise: alguns dados sintetizam o avanço que
temos colhido no longo prazo, como a redução da pobreza - de 50% da população
mundial em 1945 para menos de 10% atualmente; o crescimento mundial global; a
elevação na longevidade e da expectativa de vida. O modo de vida que acompanha
esses avanços tem produzido, por outro lado, uma era de excessos que causam
retrocessos, seja quanto à sustentabilidade seja quanto à qualidade da convivência
social. A melhoria do padrão de vida não tem
beneficiado a todos com equidade, nem tem se dado em todos os países. As
desigualdades se aprofundam, com sérias consequências (Nota 1). Como chegamos a
isso? O que fazer?
- Sobre semelhanças: já passamos por momentos semelhantes e saímos de outras crises que nos levam a buscar na História recente lições para atuar com responsabilidade na crise multifacetada atual, diferente das anteriores pelo ritmo e dimensão. Voltando à grande virada para o século XX, quando os produtos da Revolução Industrial levavam a um boom de consumo acompanhado por pestes e por uma Grande Guerra (1914/1918) encerrada por um péssimo acordo de paz levando os países perdedores ao empobrecimento pelo pagamento insustentável das dívidas de guerra. O rancor gerado levou aos “ismos” - fascismo, nazismo e stalinismo, e aos horrores da II Grande Guerra (1939/1945) com novas armas trazendo a possibilidade de extermínio de boa parte da Humanidade.
Os acordos de paz firmados ao final da Segunda Grande Guerra do século passado gerou uma Nova Ordem Mundial conduzindo a um ciclo de crescimento global. Houve a divisão do mundo entre um bloco capitalista e outro comunista - Guerra Fria, que terminou com a Queda do Muro de Berlim em 1989, viabilizando o Consenso de Washington com estabilidade e significativos avanços globais sincronizando economia e novas tecnologias, desenhando um novo padrão de desenvolvimento global. Na sequência, em 1971 o presidente Nixon retirou o lastro-ouro do dólar, a moeda forte dos contratos mundiais, afetando profundamente o sistema monetário mundial, e em 1973 e 1979 os países árabes surpreenderam o mundo com os choques do petróleo, a matéria-prima sobre a qual se movimentava a economia. A crise mundial que se seguiu trouxe incertezas, instabilidade, quebra de países, recessão e hiperinflação. A crise foi enfrentada com mudanças disruptivas, como Consenso de Washington e a criação da União Europeia em 1991, com uma nova moeda comum para todo o continente. No Brasil à mesma época se firmou a transição entre o governo militar e um governo civil com o compromisso de uma Constituinte de 1988, com novas instituições e a organização do Estado Democrático de Direito, e um ciclo positivo nos anos 1990, com o Real e reformas relevantes. Hoje os extremismos se multiplicam pelo mundo, estados disfuncionais requerendo reformas necessárias aos novos tempos da Revolução Industrial da IA e espantoso crescimento das desigualdades (Notas 2 e 3).
- Sobre as diferenças: em 2001 a derrubada das Torres Gêmeas de NY gerou uma inflexão. O terrorismo global e a resposta a ele fragilizaram o sistema democrático que marca a era moderna. A crise atual, que chega como uma “tempestade perfeita” que vai além de fatores econômicos, está a exigir uma reflexão e uma visão de longo prazo que fundamente a tomada de decisões de curto prazo. Aí entre a política. Tanto para o Brasil quanto para o mundo, a diferença de velocidade entre a evolução da tecnologia e a das instituições é causa de crises onde Estado e governos têm se mostrado incapazes de liderar uma saída e, muitas vezes, funcionam como agentes ativos do retrocesso. Aprofundam-se as desigualdades sociais, fonte de instabilidades e de descrença nas instituições. No espaço aberto por esse fosso entre os que muito têm e os que pouco têm, o crime organizado tem substituído o Estado em muitas das suas funções. A imprensa e a grande inovação das redes sociais têm sido importantes na divulgação dos fatos, essencial para a tomada de decisões em condições de incerteza e risco crescentes. Planejar é fundamental. Com decisões equivocadas a empresa pode falir. Já os governos não. Quando erram, intencionalmente ou não, quem paga é a sociedade.
- Sobre a perda de valores: a violência se intensifica em todo o mundo e escândalos seguem em escabrosa e acelerada sequência. Exemplos da semana: (1) o caso do cão Orelha em Florianópolis em que uma juíza considera não terem os adolescentes cometido qualquer crime. (2) o sintoma de uma sociedade doente se confirma com o 11º feminicídio e 30 tentativas, cometidos por ex-companheiros em janeiro no RS, somando-se às outras, apesar das ações policiais e campanhas para coibir esse tipo de crime. (3) a Presidência da República e a mais alta Corte do país (STF) decretam sigilo eterno para fatos ligados aos seus gastos - pagos com dinheiro público, bem como para tudo a que se refere aos mega escândalos do Banco Master e do roubo dos aposentados do INSS, com autoridades coagindo instituições como a imprensa e o Congresso Nacional para impedir investigações. (4) no front externo, em Minnesota a polícia federal ICE executou 2 americanos que registravam pelo celular ações contra imigrantes, e as mais altas autoridades afirmaram em suas narrativas que a causa dos crimes era das vítimas; a população saiu às ruas mesmo sob frio de 20 graus negativos para dizer “basta”! (Nota 4). (5) no Irã a população enfrenta, às custas de milhares de execuções, as barbáries do regime dos aiatolás. (6) no Chile, ministros da Suprema Corte são presos, acusados por crimes como venda de sentenças.
Quando
falha a Justiça, agoniza a Liberdade, bem maior dos estados livres e
democráticos.
- Sobre iniciativas recentes: motivadas
pelo ano eleitoral, organizações se reúnem para tomar decisões e planejar 2026.
Cito algumas desta semana. O Manifesto Empreendedor 2026, assinado por
diversas entidades, listando12 eixos de ações propostos a partir de debates
plurais num esforço para criação de convergência em torno de políticas para o
estado. O Jornal do Comércio promoveu um
debate para o lançamento do seu inovador Anuário de Investimentos do RS 2025
com dados de todos os projetos realizados e a realizar no RS. O Conselho de
Presidentes do Instituto Caldeira promoveu reunião para debater dentro do seu
horizonte de planejamento as perspectivas de mudança neste ano eleitoral de
2026.
Inovamos muito
nesse sentido, com a criação de Conselhos, Observatórios, Institutos, e experiências
governamentais para legitimar a autoridade. Cresceu o uso de ferramentas como o
voto para decidir através da participação popular, melhorando a qualidade da
democracia. Foram várias as experiências de Democracia Deliberativa buscando uma
solução consensuada para questões conflituosas; as dos Orçamentos
Participativos para a definição de investimentos; as de Consultas Públicas para
aprovar reformas (Nota 5).
Não é
preciso que a crise se aprofunde para trilhar-se o caminho da mudança já em
2026. É preciso urgência para reformas prioritárias que requerem compromisso de
líderes e agentes públicos em convergência em torno de uma Agenda Política de
Estado. Ao trabalho.
Nota 1: (https://www.agazeta.com.br/artigos/rage-bait-quando-a-raiva-sequestra-o-debate-todos-perdem-0126).
Nota 2:
História e negócios são cíclicos (https://yeda2024.blogspot.com/2025/07/os-anos-loucos-um-roteiro-ii-julho-de.html).
Nota 3: https://yeda2024.blogspot.com/2025/12/a-busca-pela-verdade-feliz-2026-31-de.html.
Nota 4:
- Provocações para o debate: natureza da crise que estamos vivendo (https://yeda2024.blogspot.com/2025/05/tempo-e-ciclos-maio-2025-iii-tempo-e.html): responsabilidade individual e associativa para que
2026 possa ser um ano de mudança; o que propor e como agir,
propondo um Projeto de Estado num compromisso político consensuado.
Nota 5: Algumas delas em https://yeda2024.blogspot.com/2026/01/2009-coragem-para-inovar-na-educacao-do.html e https://yeda2024.blogspot.com/2025/12/observatorios-para-uma-agenda-2026-5-de.html
Comentário sobre o artigo
ResponderExcluir“2026: Uma oportunidade para sair da crise” – Yeda Crusius
O artigo de Yeda Crusius oferece uma reflexão ampla e oportuna sobre a natureza das crises contemporâneas e sobre a necessidade de uma visão de longo prazo para enfrentá-las. Partindo de uma leitura histórica, a autora mostra que momentos de ruptura – como as guerras mundiais, os choques econômicos ou transformações tecnológicas – frequentemente antecederam ciclos de reorganização institucional e avanço econômico. Essa perspectiva histórica reforça a ideia de que crises, embora dolorosas, também carregam potenciais transformadores.
Um dos méritos do texto é tratar a crise atual como multifacetada: econômica, institucional, social e moral. A autora observa que avanços importantes do último século – como o aumento da longevidade, a redução da pobreza global e o crescimento econômico – coexistem com novas tensões, como desigualdades crescentes, fragilidade das instituições e perda de confiança social.
Essa leitura ajuda a compreender que o problema contemporâneo não é apenas econômico, mas também político e civilizatório.
Outro ponto forte é a análise da distância crescente entre a velocidade da tecnologia e a evolução das instituições. Esse descompasso tende a gerar instabilidade e crises de governança, pois os mecanismos políticos e institucionais não acompanham o ritmo das mudanças tecnológicas e sociais.
Essa observação é particularmente relevante no contexto da chamada nova revolução industrial associada à inteligência artificial.
O artigo também chama atenção para o papel da política e da liderança pública. Ao enfatizar a necessidade de consensos, convergências e uma agenda de Estado — especialmente em um ano eleitoral — a autora reforça a ideia de que a superação das crises depende menos de diagnósticos isolados e mais de coordenação institucional e compromisso coletivo com reformas estruturais.
Talvez a principal contribuição do texto seja a defesa do planejamento democrático: a mobilização de instituições, observatórios, conselhos e espaços deliberativos capazes de produzir convergências em torno de um projeto de longo prazo. Essa abordagem procura recuperar a política como instrumento de construção coletiva de futuro, e não apenas como arena de disputas imediatas.
Em síntese, o artigo provoca o leitor a refletir sobre a crise atual não como um impasse definitivo, mas como um momento de escolha histórica. A mensagem central é clara: crises podem ser pontos de inflexão — desde que lideranças e sociedade assumam responsabilidade e atuem com visão estratégica.
É um texto que estimula o debate qualificado e convida à ação, lembrando que planejar e construir consensos é condição indispensável para transformar crises em oportunidades de renovação institucional e social