UM ROTEIRO PARA ESTUDAR OS CICLOS

SÉRIE  OS ANOS LOUCOS (I)

Julho de 2025

Michelangelo, quando perguntado sobre como havia criado a escultura de David (1504), obra prima do período do Renascimento, respondeu que não havia criado nada. O que tinha feito foi soprar a gigantesca pedra de mármore e revelar o que já estava lá. Coisa de gênio. De tempos em tempos se diz que algo novo "foi criado", mas se pode afirmar que já existia e que só reapareceu em nova embalagem. E mais raramente, de tempos em tempos se cria uma obra-prima.

Os nossos são tempos de avanços tecnológicos capazes de colocar o homem na lua, enquanto pessoas ainda não acreditam nisso, outras que a terra é plana, outras em ETs. O que vivemos hoje tem muita semelhança com os anos 20 da década de 1920, chamados de Anos Loucos.  Uma aparente loucura parece dançar solta no mundo, e as semelhanças entre as duas décadas nos ajudam a entender o atual momento de desordem e, assim, buscar sair do imbloglio sem os mesmos custos que tivemos para sair de imbloglios no passado. 

A História ensina registrando longos períodos de transformação e criação, como o do Renascimento - movimento cultural, econômico e político que se estendeu do século XIV ao século XVII, assim como outros períodos de destruição, como o que se seguiu à década 1920 e se convencionou chamar de século das grandes guerras. Na saída de cada período a ordem que o caracterizou dá lugar a uma nova ordem, caracterizando o próximo período.

Vida é movimento. Vida é ciclo. Existem ciclos de uma vez só, como a dos seres vivos, outros que se repetem, como os ciclos de negócios, os climáticos, os tecnológicos. A figura abaixo mostra os ciclos na visão de Schumpeter, economista que estudou trajetórias de expansão e retração cíclica do capitalismo. Para ele, na fase de expansão são plantadas as sementes da recessão e, da mesma forma, na recessão que são lançadas as sementes da recuperação que vem a seguir. A figura marca as datas importantes a partir das Revoluções Industriais que mudaram de modo significativo a vida das economia e das sociedade, e que tem se completado em períodos cada vez mais curtos.

Datas marcam mudanças no tempo a partir de eventos importantes. Algumas merecem ser comemoradas pelos economistas. Uma delas é 1883, ano de nascimento e morte de três dos maiores economistas que entenderam e influenciaram o mundo herdado das Revoluções Industriais e das Grandes Guerras: Karl Marx, John Maynard Keynes e Joseph A. Schumpeter. Keynes e Schumpeter entenderam o espírito do capitalismo, a incerteza e a dinâmica econômica dos ciclos, e propondo políticas públicas que, respeitando os ciclos, são até hoje condutoras do desenvolvimento. O capitalismo, como sistema econômico baseado na propriedade privada e na busca do lucro, consolidando-se a partir da Revolução Industrial do século XIX, marca o fim do feudalismo com novas formas de organização econômica, social e política na transição da Idade Média para a Idade Moderna. 

Entre os três econkmistas há uma coincidência histórica: Schumpeter nasceu em 1883, o mesmo ano de nascimento de Keynes e da morte de Marx. Coordenando o pós-graduação da Faculdade de Economia, decidimos celebrar essa coincidência de data realizando um século depois, em 1983, a disruptiva Semana Marx-Keynes no IEPE/UFRGS. Digo disruptiva porque, ainda sob o regime militar, não se falava livremente nem sobre o comunismo herdado de Marx, nem na defesa do liberalismo em que Keynes e Schumpeter foram expoentes. Durante aquela semana colocamos Porto Alegre no radar da liberdade trazendo os maiores especialistas do país em Marx e Keynes para conferências, debates, e apresentação de trabalhos. Causamos.

Na economia dois conceitos são importantes para descrever o capitalismo: destruição criativa, conceito que, já presente em Marx foi popularizado pelo austríaco Joseph Schumpeter em seu livro Capitalismo, Socialismo e Democracia, publicado nos Estados Unidos em 1942.  "Esse processo de destruição criativa é o fato essencial do capitalismo" ; e o Espírito Animal , conceito que John Maynard Keynes usou em seu livro de 1936 The General Theory of Employment, Interest and Money (1936) para descrever emoções que influenciam o comportamento humano. " uma grande proporção de nossas atividades positivas depende mais de otimismo espontâneo e só podem ser tomadas por resultado de um impulso para a ação, e não como consequência de uma pensada média de benefícios multiplicada pelas probabilidades quantitativas." Para além do cálculo, a motivação.

Importante também para a compreensão da natureza cíclica da Economia é o estudo pioneiro do economista russo Nikolai Kondratiev. Contemporâneo de Keynes e Schumpeter (1892/1938) sobre os ciclos longos formados por períodos de 40 a 60 anos, explicados como parte das revoluções tecnológicas que marcam com intensidade o mundo capitalista, ocasionando ondas de  crescimento e de crises. Ciclos longos levaram da ascensão à queda as eras comandadas pelas máquinas à vapor (1790-1850), pelas ferrovias (1850-1896), pela eletricidade e pelos automóveis (1896-1930). Hoje vivemos a Era Digital, ciclo de revolução tecnológica comandada pelo computador e pelas redes moldando o modo de vida e as preocupações sobre o futuro.  

As políticas econômicas propostas por esses autores geraram resultados dentro do que se convenciona chamar de Ordem Mundial, sendo válidas até hoje para governos que buscam desenvolvimento e estabilidade respeitando os ciclos. Os tempos atuais, entretanto, são de desordem. Não há no presente uma nova ordem substituindo aquela que, nascida após a II Grande Guerra, desmontou-se com a queda do Muro de Berlim de 1989 vigindo de modo disfuncionl até a Era da Digitalização. Sem a criação de nova ordem que organize instituições que garantam a saída do atual imbroglio, que agenda seguir?

I  - Antecedentes: o que é já foi, com outra embalagem. 

1 - Nos anos 1920 grandes fluxos migratórios, vindos principalmente da Europa empobrecida pela destruição da guerra, dirigiam-se à nova Terra Prometida, os Estados Unidos. Seus Fundadores, em Carta Constitucional  (1787), haviam inscrito nela a organização de um sistema de democracia baseada na defesa da liberdade e do livre mercado, apesar de coexistirem a escravidão e uma sangrenta Guerra Civil durante ainda algum tempo. Essa constituição deu rumo e identidade à nação americana, propiciando as condições para um vigoroso crescimento econômico, com oportunidade de trabalho para todos. Havia a esperança de uma paz duradoura graças ao acordo político que deu fim à I Grande Guerra (1914/1918). A Revolução Industrial dava condições a uma onda de liberdades como a a da mobilidade e do acesso ao mercado de novos bens de consumo, e movimentos artísticos se multiplicavam pelo mundo. Livres da Gripe Espanhola e da guerra, ambas com seus milhões de mortos, todos pareciam querer viver intensamente na nova cultura. 

Durou pouco.Um caldo de rancor vindo dos países  perdedores, forçados a pagar pelos custos da guerra, alimentou extremismos que conduziram à II Grande Guerra (1939/45), com outros milhões de mortos. O uso da arma, a atômica acendeu a consciência de que a humanidade poderia pôr um fim a si própria. Terminada a guerra, em 1945 uma nova ordem mundial se estruturou a partir da Conferência de Yalta, da criação da ONU (Organização das Nações Unidas), dos bancos internacionais de fomento, dos acordos de Bretton Woods (1944). Formaram-se dois grandes blocos de países líderes, o bloco ocidental com os países da Europa e dos Estados Unidos, e o comunista, com a Rússia e seus satélites dentro da União Soviética (URSS). O bloco ocidental assentou-se na defesa da liberdade e do livre comércio; já o bloco soviético no planejamento estatal central. Associando-se a um destes, um terceiro bloco foi se formando com os  "países do Terceiro Mundo" como o Brasil, fornecedores de matérias-primas, e dependentes do novo padrão de desenvolvimento trazido pela segunda Revolução Industrial com produtos cuja matéria-prima e combustível principal era o petróleo.  

A nova fase de globalização trouxe estabilidade monetária e crescimento até os anos 1970, quando o fim do padrão-ouro (1971) no governo Nixon e os choques do petróleo de 1973 e 1979 levaram o valor do dólar, atrelado ao do petróleo, a escalar instantaneamente de centavos para 100 dólares o barril. Os países endividados em dólar quebraram, sofrendo com recessão e hiperinflação. Os países da União Soviética que não acompanharam o crescimento da produtividade da Revolução Industrial, como a  liderada pelos países de livre mercado, entraram em crise. O edifício construído por Bretton Woods acabou ruindo na queda do Muro de Berlim em 1989. 

Um novo acordo global foi trazido pela formação da União Europeia e a nova moeda Euro, com o financiamento, a partir da Alemanha reunificada e da França,  reconstruindo a Europa onde conviviam até então países altamente desenvolvidos com países destruídos pela guerra, reconstrução já no novo padrão industrial. Outros países, como o Japão e a China, entraram com força nesse ciclo. O crescimento econômico global dos anos 1990, associado  aos tempos de paz,  alimentou a esperança de um novo ciclo de desenvolvimento global.

2 - A virada para o ano 2000 vindo com a esperança de um mundo melhor, sintetizada na Agenda da ONU para o novo milênio. Era um guia para a cooperação global. Grandes fluxos migratórios, agora a partir da Ásia e do Oriente, dirigiam-se à Europa ocidental, à Austrália, Nova Zelândia, e Estados Unidos. Durou pouco tempo, pois o choque de culturas ficou evidente com a derrubada das Torres Gêmeas de Nova York em 2001. As liberdades conquistadas na era da tecnologia das redes, como a da comunicação e da mobilidade, foram trocadas por controles, em nome da segurança. Novas pandemias surgiram, e o estouro da "bolha imobiliária" dos Estados Unidos em 2008 acendeu a luz de perigo de uma nova Depressão Econômica como a de 1929. O pilar financeiro da ordem mundial apresentava fissuras graves, assim como o pilar político que o sustentava. Os países detentores de moedas fortes evitaram uma crise maior fabricando dinheiro. No mesmo período, uma nova moeda foi criada com a liberdade permitida pela tecnologia: a criptomoeda. De outro lado, contrastanto com o aumento dos controles acionados depois das ações terroristas em territórios dos EUA e Europa, multidões organizaram-se com a liberdade das redes sociais e foram tomando as praças em diversos países, pedindo o fim de longas ditaduras e da corrupção cada vez mais escancarada. Era a Primavera Árabe, iniciada na Tunísia em 2011. Operações como a Mãos Limpas (anos 1990 na Itália) haviam derrubado governos corruptos, e outras como a Lava-Jato no Brasil (1914) pareciam conduzir-nos a um "novo normal", a uma nova ordem. Só que não.

II - O presente: as velhas pestes no mundo universalmente conectado

Em 2020 o mundo foi sacudido pela pandemia do coronavírus, com seus milhões de mortos. Países buscaram fabricar rapidamente vacinas, o Brasil com sucesso. Defenderam-se do vírus fechando as suas fronteiras até então abertas pela globalização dos anos 1990 e seus grandes fluxos de migração dirigindo-se às novas Terras Prometidas. Reacende-se o rancor advindo do choque entre a cultura do novo, presente no mundo ocidental, e a cultura do velho, com uma parte da massa de imigrantes buscando impor o seu modo de vida nos territórios para onde se deslocaram. Movimentos violentos vão sendo registrados nas universidades e escolas, nas ruas das cidades, com o crime organizado se somando à falência dos estados, e o terrorismo urbano, trazendo o medo de volta. A democracia como a que conhecemos estremece.

São duas faces da mesma moeda: a espécie que cria é a mesma que destrói.  Para além do choque entre culturas num mesmo território, sucedem-se eventos climáticos extremos, com incêndios incontroláveis, chuvas torrenciais, ciclones que se multiplicam por toda a Terra. Multiplicam-se também no nível das comunidades os crimes bárbaros, como os 10 feminicídos registrados em apenas 4 dias de feriado desta Páscoa no Rio Grande do Sul, todos cometidos pelos ex-companheiros das vítimas, das mais diferentes idades, nas mais diversas situações. Estoura, dominando o noticiário, mais um escândalo conduzido de dentro do estado: o roubo bilionário praticado contra pensionistas e aposentados do INSS como contribuição não autorizada a associações de defesa dos aposentados de quem o INSS deveria cuidar. O governo lava as mãos.

Olhando para a outra face da moeda, a do meio copo cheio,  o telescópio James Webb nos envia imagens que desmentem teorias do Universo até então aceitas, bem como prova da existência de elementos muito distantes que ele percorre, e que são a base da criação/existência da vida para além dessa maravilhosa vida na Terra. Ela algum dia pode acabar aqui, mas pode nascer em outro lugar do Universo. E já entrando em maio, celebrando  o lado claro da força (em Guerra nas Estrelas, 1977/2005)  também são lembrados e homenageados os milhares de voluntários que, vindos de todo canto do Brasil e do mundo para atuar nas enchentes do ano passado no RS que tirou tantas vidas e destruiu parte de nosso estado, alimentam a esperança de que a Humanidade mantém os seus melhores valores apesar de todos os desafios do momento.

IV - O que será: o futuro se constrói hoje.

Alguém pode pensar que, porque é apenas UM entre milhões, o que fizer não influencia o todo. Alguns pensando assim não votam, não agem. Se muitos fizerem o mesmo, os eleitos serão aqueles que vão determinar a vida de todos, não apenas as dos que votaram neles. O micro e o macro, o todo e as partes, essa é uma questão fundamental não apenas para a filosofia, a matemática, a astronomia, a política. O é também para a vida pessoal, afetada pelos controles sociais, pelo avanço tecnológico, pela perda de qualidade dos serviços públicos essenciais, pela censura. 

Nas crises moldam-se os líderes que conduzem os povos no processo de evolução, assim como são líderes os que levam povos às guerras com seus milhões de mortos. É bom poder escolher nossos líderes, pois a inação tem consequências. Na crise global de nossos dias é disto que se ressente o mundo: de líderes que possam conduzir à solução dos imbroglios que a cada pouco surgem. Com os anos loucos da década de 20 do século passado muitos aproveitaram a oportunidade, aprenderam, e enfrentaram a realidade com inovações que resultaram em um ciclo de desenvolvimento para a maior parte dos povos.

A atual crise de valores se espalha na desordem crescente pelo mundo conectado. É preciso, reconhecendo nossos potenciais e nossas limitações, redesenhar uma agenda para o futuro, escolhendo prioridades e ações que permitam avançar, evitando os erros conhecidos do passado, seus custos e consequências. Crises são oportunidades para inovar enquanto pessoa e no coletivo, para que a força de um não se sustente na tentativa de destruição do seu lado oposto. Esse é um movimento que acaba com os dois. A vida como a conhecemos demorou milhões de anos para acontecer na esteira da longa e contínua evolução. Não precisamos antecipar o que o movimento do Universo tende a fazer nos próximos milhões de anos e desfrutemos, insistindo no diálogo e persistindo nas ações de cada dia, da maravilha única com que fomos agraciados: a própria vida.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog