HISTÓRIA DE UM SÉCULO E MINHAS AMIGAS OPEN HOUSE Fui criada vivendo em casas com quintal e portão que se abria com a mão. Qualquer mão, a partir da calçada. Casas abertas, sem grades ou trancas ou chaves, embora morasse na megalópole em que se transformava São Paulo. No bairro. Hoje, comunidades. Família grande, seis irmãos, com o pai de família de 11 irmãos, e mãe de outros 12 irmãos. Filhos de imigrantes. Famílias grandes pedem casas abertas, e as nossas eram. Tínhamos vizinhos, e um curtia e cuidava do outro. A Grande Família. Parece outro mundo, coisa de ficção, de utopia, mas foi real e não faz muito . Essa história registrada vem de 1901. Completa apenas 125 anos, 4 gerações, enquanto a história da Humanidade se conta em milhões de anos. Tudo foi mudando no século XX, e muito mais ainda neste novo milênio. Enquanto tudo mudava, tivemos a felicidade de nos reunir, a nossa geração, no sistema open house herdado dessa jornada não tão longa. Bem, conto aqui apenas do...
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UMA SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA 2026 Na virada para a primavera deste 2026 reuní pequenos grupos de longo convívio para celebrar a primavera. Assim fizemos um encontro 4 em 1 e aliviamos a agenda de segundo semestre, que já anda ficando cheia nesse novo modo de vida pós pandemia e enchentes, e que vem na onda do viver-em-rede. Vai ficando difícil arrumar datas para encontros, tanto quanto vai ficando difícil de selecionar o que se aceita de informação por elas, as redes. O tempo encurtou, acelerou, apesar de os ponteiros do relógio de pulso que uso avisarem que o tempo real, o da volta da terra em torno do sol nesta que é uma das bilhões de galáxias do universo. Ufa. Deu certo. Celebramos a vida com quem pôde vir, e quem não pôde as redes ajudaram, colocando em contato quem está longe, a contarmos histórias de modo compartilhado. Claro que nada disso substitui a memória de cada um se entrelaçando nos relatos feitos pelos que falaram pelos grupos. A riqueza, na verdade, está nas memórias...
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A RIQUEZA HUMANA NA ARTE DOS ENCONTROS A vida nos brinda com o encontro. Vamos nos encontrando com pessoas que navegam no mesmo barco e caminham nas mesmas veredas, construídas por relações firmes que perduram ao longo da jornada. Alguns têm uma habilidade muito especial de promover encontros para celebrar a vida, ouvir histórias, incrementar opiniões, alimentando a grande virtude de sermos amigos. Fernandinha é uma dessas pessoas. A habilidade de formar grupos, de participar de outros pela arte da literatura e da ação política, de alimentar amizades, de compartilhar viagens, vive e se manifesta na Fernanda, a poeta, professora, a energia na forma de gente. A habilidade se transforma em arte quando faz caber no casulo do corpo o infinito da mente. Assim é Fernandinha de Gravataí que, muito pequena, nos procurou em meio a campanhas políticas contribuindo com seus desenhos, suas poesias, sua alegria e seu entusiasmo. Nunca ...
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O FIO DE ARIADNE, PARA ALÉM DO ARCO ÍRIS (I) Tem um fio invisível, imaginário, feito de mitos e símbolos, que conta a história de cada um e a História de todos. De fios são tecidos os tapetes, como os que criei nos tempos da pandemia de e das enchentes entre 2020 e 2024 no Rio Grande do Sul. Desafios desse porte nos lembram da vida como um labirinto do qual é preciso achar a saída. Nos anos de pandemia, de 2020 a 2022, foi decretado o fique em casa, e no mundo todo o uso das comunicações via internet foi vital. Vídeos caseiros amenizaram o isolamento forçado, e milhões tiveram que aprender a usar as redes digitais para o dia-a-dia. O grande desafio era, ganhando consciência do tamanho da tragédia e suas consequências, viver as horas do dia criando modos de viver novos. Bordei tapetes, o mesmo tema em várias versões, durante a pandemia. Logo depois vieram as enchentes no estado. A mobilidade foi de novo interrompida com cidades sitiadas, pontes arrastadas, estradas ina...
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Minha amiga Cecília Hoje nos despedimos da minha amiga-irmã, Cecília Fazzio dos tempos em que, ainda não casadas, trazíamos o nome do pai como sobrenome. Hoje sou Rorato Crusius, e Cecília é Fazzio Massiero. Das lembranças que tenho de minha infância e juventude em São Paulo, nenhuma é tão mais viva e presente quanto a dos anos em que fomos descobrindo de nós e da vida até que, como é da vida, eu fui para Nashville e depois vim para Porto Alegre. Vivo aqui há muito mais tempo do que em São Paulo. Ela permaneceu em São Paulo, e neste mais de 70 anos de distância jamais deixamos de nos falar em cada aniversário, a cada novidade, alegre ou triste, como é natural para os que seguem o fio da vida sem rompê-lo - só o valorizando. Assim foi comigo, assim foi com todos que tiveram a alegria de privar com ela. Quem tem uma amiga-irmã sabe do que estou falando. Nosso começo foi na rua das Camélias, no bairro com nomes de flores, sem calçamento e muito folguedo na rua, inclusive jogan...
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A VIDA COMO ELA ESTÁ SENDO Moramos desde 2025 em um prédio de 14 andares com 48 apartamentos. São apartamentos pequenos, de fácil manutenção e de agradável convívio com as áreas comuns que oferece. Apenas nós assinamos jornal impresso. Isso quer dizer que é um prédio habitado por gente mais jovem, que vive em outra civilização que não a da escrita. Espero com ansiedade o Jornal do Comércio das sextas feiras, trazendo sempre um caderno especial chamado Viver. Sugestivo e significativo. É sobre artes, opiniões, e a programação cultural para o final de semana. Sobre o viver. Hoje me brindou com a reportagem especial, sobre Ricardo Timm de Souza. Me vi nas descrições dessa intensa vida. Muitos se verão. No nosso caso, encontramos na Filosofia, já maduros, um caminho novo depois daqueles percorridos como professor, escritor, intelectual e, no meu caso, política. A reportagem me pega ultimando o primeiro dos livros da trilogia que estou escrevendo, que iniciei na mudança de v...
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A CRIANÇA QUE NÃO FUI PELAS HISTÓRIAS QUE NÃO ME CONTARAM O hábito de ler para as crianças antes de dormir não vivi. As histórias da literatura infantil passaram ao largo da minha infância. Não lembro de muitas coisas da tenra infância, mas lembro bem das formigas gigantes de nossa casa em Belo Horizonte. Lá nasceram meus dois irmãos menores, Lupércio e Thais. Pouco depois do último parto minha mãe adoeceu, e voltamos para São Paulo, divididos em casas de tios por alguns meses. Depois tinha uma lacuna nas lembranças, causado pelo trauma daquela curta separação. Terapias me ensinaram a identificar e vencer fantasmas daquele tempo. Na cidade grande com família grande, muitos primos e tios, aprendemos o modo coletivo de viver. De pessoal, tímida, foi com diários que troquei confidências e registrei meu cotidiano. Nas escolas tradicionais onde estudei, o método de ensino priorizava o ensino formal distante de brincadeiras. Os pais no lufa-lufa da vida não tinham tempo para elas. ...