SYLVIA
MARESTI RORATO: AS ARTES DE MINHA MÃE
Da Série Tributos
(V)
3 de
abril de 2026
Figura 1:
Sylvia, os filhos e os pais, Sylvia e Francisco
Hoje estaria de aniversário minha irmã Marília, a quem presto homenagem pela foto que escolhi para a identidade do meu whatsapp. Marília é primeira dos seis filhos de minha mãe (Figuras 1), a mais alta de tranças na foto. Celebro a data compartilhando um pouco da história de Sylvia, em tributo. Começo pelo título: Sylvia e suas artes. Sensitiva, criativa, festeira, esportista, amante da vida, Sylvia colocava em criações seus dons para a escrita, a costura, a culinária, a música italiana - que aprendi com ela cantando enquanto produzia suas artes. De alguma forma esse dom foi transmitido a todos nós. Eu fui para a comunicação, parte de minha história vivida em palestras, rádios e TVs. Meu irmão Percival, artista de profissão e hoje morando em Genipabu (RN ), herdou um dom special para desenho, pintura, tecelagem, em obras como o painel da lua cheia e pássaros que pintou quando me elegi deputada federal, o meu retrato, e o tapete produzido na Ilha Comprida, no litoral de São Paulo, quando lá passou uma temporada (Figura 2). Honrando a genética, meu filho César Augusto, canhoto como o tio, tem o mesmo dom para desenho e pintura, assim como sua filha, minha neta Helena.
O dom que Sylvia nos legou para as artes se concentrou durante um rico tempo de São Paulo, em especial na Blimp Films do Guga e da Thais, a filha caçula. Muito da história do cinema e da TV brasileiros foi ali realizado. Na era dos streamings e redes que vivemos, é bom conhecer um pouco dessa história precursora (https://youtu.be/9wykkMQ3WoI?si=VF6h5o8cke-zOOr6), com a criação de programas disruptivos de TV como Fantástico e Globo Repórter, longas de cinema, comerciais famosos. Thais cuidava da produção e da criação, Percival de cenários, Sylvia de figurinos, Lupércio da organização da empresa. Na Blimp gravei um comercial para a TV, antes de seguir para Nashville, onde me casei e segui para Porto Alegre. Mais tarde, com sua experiência Lupércio e Thais vieram cuidar das minhas primeiras campanhas eleitorais (1994 e 1996). Sylvia nos deixou repentinamente durante a campanha de 1996, da qual saí apressadamente para ir despedir-me dela que, cercada pelos filhos, se foi de forma serena, como queria.
Figura 2: Percival em Genipabu, a arte em painel, retrato e tapete
Algumas lembranças me são especialmente preciosas para registrar a veia artística de Sylvia. Sua criatividade usando a escrita colocava nas cartas, muitas que recebi quando morei em Nashville. De modo especial lembro de sua crônica para celebrar o Dia da Árvore no nosso colégio, a melhor do ano. Contadora de histórias ela ouvia as nossas, no café-da-manhã com que nos esperava quando voltávamos a pé das festas no alvorecer, e que depois recriava e contava como histórias da vida. Fazia o mesmo com as vivências do sítio da Thais e do Guga, no Embu das Artes, onde eles reuniam a grande família, e que as crianças curtiram demais. Para além dos figurinos que Sylvia produziu para a novela Dancing Days, da Rede Globo, dias que ela viveu na década dos 1920 e 1930 quando jovem, lembro da beleza e da ousadia dos vestidos que fazia para as filhas. Vesti um deles no aniversário conjunto com meu pai em 1961 (Figura 3), e levei várias criações suas quando fui morar nos Estados Unidos. Peças únicas, sucesso sempre.
Figura 3:
aniversário 1961
Na arte à
la da Vinci lembro dos balões enormes que fazia na forma de cabeça-de-padre,
mixirica, cruz. Antes do perigo de incêndio crescente daquela época de acelerada urbanização da
cidade, fazia subir soberanos como mágica os balões, do tamanho do sobrado onde vivíamos, aos céus de junho. Morávamos na
Rua das Camélias, ainda não calçada, como todas as ruas do bairro. Na arte da representação, eram especiais as festas juninas quando ela e os vizinhos fechavam a rua, armando enorme fogueira, oferecendo em barracas desde quentão a pamonha, paçoca e pinhão, ensinando e organizando a dança de
quadrilha, construindo a cadeia, e das brincadeiras que marcam essas festas no
Brasil.
Sensitiva,
lembro dela atendendo a pessoas desconhecidas que tocavam no portão de casa
“por ter recebido mensagem para ir até lá”, e que ela ajudava. De seu espírito livre
de preconceitos lembro de como servia um café com bolinhos de dia de chuva para conversar com a linda e misteriosa vizinha que
recebia visitas de um homem importante chegando com um carrão importado, e que
as cajazeiras de plantão condenavam por ter um “protetor”. Sobre ritos como o de cultuar os que
já se tinham ido, lembro das velas votivas e de seu amor a Airton Senna, do seu choque ao ver ao vivo pela TV seu acidente e morte, e a decisão que cumpriu de nunca
mais assistir à Fórmula 1. Da arte da culinária lembro de modo especial dos
domingos. A feijoada e o cozido à portuguesa tinha aprendido com sua mãe, vó Conceição, indo do cuidado exigido desde a escolha dos ingredientes até a preparação
da mesa, e do grande número de panelas para fazer o cozimento em diferentes tempos dos
legumes e carnes, da caipirinha que fazia com limões especiais, e de como se deliciavam as muitas visitas dos domingos.
Pelos documentos da minha
família Maresti conquistei a cidadania italiana. Guardo arquivos e fotos, e aqui compartilho algumas. Minha memória esmaecida guarda o caminho
de casa feito de taxi até a casa de minha vó portuguesa Conceição cercada de gatos, à beira do rio Tamanduateí, na Ponte Pequena, perto do rio Tietê, em São Paulo. Meu vô Gofredo, que não
conheci, pescava lá. A vó conheci sempre vestida de preto, com os cabelos brancos puxados para trás, como é hábito das viúvas portuguesas, mesmo
após décadas de viuvez de meu avô Gofredo.
Figura 4: Gofredo Maresti,na
casa às margens do Rio Tietê (SP)
Figura 5:
Vó Conceição com a primogênita Sylvia, e ela grávida de Lupércio
Não tendo sido uma pessoa pública como meu pai, busco dos meus arquivos pessoais lembranças que selecionei sobre sua família. Ela, que escolhia o nome dos filhos (Marília, Yara, Percival, Yeda, Lupércio e Thais), nomes saídos do mundo das artes, nos deu, a mim e a Yara, o Y de seu nome, que escolhi como símbolo para a minha identidade política.
Yeda, querida, nas suas memórias carregadas de afeto — e dessa saudade que às vezes chega sem avisar — vamos conhecendo Sylvia. Esta crônica tão bonita nos revela, com delicadeza, que ela era dessas pessoas que não cabem em uma única definição.
ResponderExcluirHavia nela uma mistura rara de sensibilidade e presença, como se tudo o que tocasse ganhasse um pouco mais de cor, de forma, de intenção.
As artes não eram apenas um talento — eram sua linguagem natural. A impressão é de que se expressava com a mesma fluidez ao escrever, ao escolher um tecido, ao combinar peças, ao transformar o cotidiano em algo esteticamente marcante.
E há também a mulher que exerceu um dos papéis mais profundos — e mais humanos — o de mãe, com sabedoria. Não apenas no sentido tradicional, mas como alguém que inspira, acolhe e deixa marcas duradouras.
E é bonito ver como você transforma essa presença em palavra, minha dileta amiga. Escrever sobre sua mãe é mais do que lembrar — é um gesto de amor que preserva, ilumina e permite que outros também a conheçam, ainda que por entre as linhas. Sua iniciativa é, por si só, uma forma delicada e poderosa de mantê-la viva. Meu abraço.
Querida amiga, hoje, neste dia muito especial, comparetilho novamente o tributo que a Sylvia faço. Seria um livro de uma vida inteira, mas deixo esse pequeno resumo a todos que têm a alegria de ter tido uma mãe presente, intensa. Beijão pelo
Excluirteu dia, também.
Homenagem linda à mãe Sylvia e sua familia.
ResponderExcluirMuito dela vejo em ti. Mais do que guardar lembranças é saber colocar na escrita uma forma de perpetuar sua história. E isso você faz com maestria. Nossos entes queridos,que ja partiram , vivem em nós através das nossas memórias e dos ensinamentos que nos transmitiram. Viva o Dia das Maes! Gratidão pela vida. ❤️