SYLVIA
MARESTI RORATO: AS ARTES DE MINHA MÃE
Da Série Tributos
(V)
3 de
abril de 2026
Hoje é um
dia especial. É Sexta-feira Santa. À noite fomos assistir ao evento com John
Malcovitch, renomado artista americano, no Multipalco do Theatro São Pedro. Fez
a leitura de livro, literatura clássica da política da América Latina no
período militar, acompanhado pelo trio de violino, piano e bandoneon. A música
foi composta para acompanhar a emoção da leitura, a partir de clássicos latino-americanos.
Emocionante, da mais alta qualidade musical e histórica. Este blog é um tipo de
diário no qual deposito emoções, seja a dos sonhos quando desperto, ou as que
me envolvem como as neste dia especial com a lua cheia de Páscoa iluminando a
noite no mundo.
Figura 1:
Sylvia, os filhos e os pais, Sylvia e Francisco
Hoje estaria
de aniversário minha irmã Marília, a quem presto homenagem pela foto que
escolhi para a identidade do meu whatsapp. Marília é primeira dos seis filhos
de minha mãe (Figuras 1), a mais alta de tranças na foto. Celebro a data compartilhando
um pouco da história de Sylvia, em tributo.
Minha mãe
Sylvia tinha o dom para arte, que foi transmitido principalmente a meu irmão
artista, Percival, hoje morando em Genipabu (RN ). Tenho obras como o painel da
lua cheia e pássaros que pintou quando me elegi deputada federal, meu retrato,
e tapete (Figura 2). O painel coloquei na sala nos meus primeiros 12 anos em
Brasília, e desde então na minha casa em Porto Alegre. Honrando a genética, meu
filho, César Augusto, é canhoto como o tio e tem o mesmo dom para desenho e
pintura, assim como minha neta Helena.
Figura 2: Percival em Genipabu, a arte em painel, retrato e tapete
Começo
hoje o tributo a minha mãe pelo título. Sensitiva, criativa, festeira,
esportista, cheia de vida, Sylvia foi artista colocando em criações seus dons
para a escrita, a costura, a culinária, a música italiana que aprendi com ela cantarolando
enquanto produzia. O registro de tudo está em nossa memória e em algumas peças
que guardo.
Lembro da
sua criatividade para a escrita nas cartas que recebi quando morei em Nashville,
e de sua crônica vencedora escrita para o Dia da Árvore. Como contadora de
histórias, ouvia e depois recriava as que contávamos no café-da-manhã com que
nos esperava na volta a pé das festas ao alvorecer. Para além dos figurinos que
produziu para a novela Dancing Days, da Rede Globo, dias que ela viveu
na década dos 1930 quando jovem, lembro dos vestidos ousados e lindos que
fazia, como aquele em que celebramos o aniversário conjunto com meu pai em 1961
(Figura 3).
Figura 3:
aniversário 1961
Na arte à
la da Vinci lembro dos balões enormes que fazia em várias formas, como cabeça-de-padre,
mixirica, cruz, e que, antes do perigo de incêndio na acelerada urbanização da
cidade, fazia subir soberanos como mágica aos céus de junho quando morávamos na
Rua das Camélias, ainda não calçada como todas as ruas do bairro. Como arte do
teatro e da representação lembro de quando ela e os vizinhos fechavam a rua
para as festas juninas, coordenando a armação da enorme fogueira, oferecendo de
quentão a pamonha, paçoca e pinhão em barracas, organizando a dança de
quadrilha e construindo a cadeia das brincadeiras que marcam essas festas no
Brasil.
Sensitiva,
lembro dela atendendo a pessoas desconhecidas que tocavam no portão de casa
“por ter recebido mensagem para ir até lá”, e que ela ajudava. De seu espírito livre
de preconceitos lembro de como tratava bem a linda e misteriosa vizinha que
recebia visitas de um homem importante chegando com um carrão importado, e que
as cajazeiras de plantão condenavam por ter um “protetor”. Sobre cultuar os que
já se tinham ido, lembro das velas votivas e de seu amor a Airton Senna, do
choque ao ver ao vivo pela TV seu acidente e morte, e a decisão que cumpriu de nunca
mais assistir à Fórmula 1. Da arte da culinária lembro de modo especial dos
domingos de festa com o cozido à portuguesa que tinha aprendido com sua mãe, a
vó Conceição, indo do cuidado desde a escolha dos ingredientes até a preparação
da mesa, e as muitas panelas onde fazia o cozimento em diferentes tempos dos
legumes e carnes, e a deliciosa caipirinha que fazia com limões especiais.
Da minha
família Maresti, pela qual conquistei a cidadania italiana, guardo arquivos,
alguns que compartilho com fotos antigas. Guardo memória esmaecida do caminho
de casa feito de taxi até a casa de minha vó portuguesa, Conceição. A família
morava às margens do rio Tietê em São Paulo, onde meu vô Gofredo, que não
conheci, pescava, e vó Conceição se cercava de gatos, sempre vestida de preto
com os cabelos puxados para trás, como é hábito das viúvas portuguesas, mesmo
após décadas de viuvez de meu avô Gofredo.
Figura 4: Gofredo Maresti,na
casa às margens do Rio Tietê (SP)
Figura 5:
Vó Conceição, três primeiros filhos, e Sylvia grávida de Lupércio
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