JOIAS QUE
A IDADE LAPIDA
O que parecia um futuro longínquo ou uma realidade distante, como japonesa e a europeia chegou aqui. É o presente real, concreto. A partir deste julho de 2026 começa o declínio de população no Rio Grande do Sul. Cada vez mais idosos e menos crianças. Isso requer para além de mudanças contínuas nas políticas públicas, e ir construindo uma nova cultura para se conquistar uma vida melhor. Menos escolas, mais hospitais, preparação de mão-de-obra, o aproveitamento do potencial de cada um, esta é uma oportunidade que se apresenta com rosto novo.
Primeiro as crianças. Na virada do
milênio, vi meu sobrinho de fraldas na frente da TV operando o controle remoto
até chegar no desenho desejado. Aprendeu por curioso, motivado pelo desejo de
ver aquele desenho já presente na memória. Sentindo e experimentando. Cérebro
de criança é joia a lapidar.
Brincando,
ao natural, se aprende a falar, andar, cantar, pintar, em fluxo contínuo. Joia
bruta. Aprendendo, o cérebro se expande até os 25 anos criando neurônios e
conexões em excessos que precisa podar para se organizar. A massa cinzenta
recebida ao nascer vai branqueando com as conexões estimuladas pelos sentidos e
pelas emoções. A partir daí a força motriz, a energia vital da evolução, vem da
mente. Dá trabalho. Seres vivos evoluem pela capacidade de adaptação às
mudanças contínuas do mundo em movimento. Com sorte e esforço chegaremos bem
até última etapa do nosso único ciclo de vida. Inevitável.
Pelo
trabalho de pesquisa e experimentação inventamos máquinas para nos servirem. Foram
séculos até chegarmos ao controle remoto e à IA. A diferença entre mentes e
máquinas nunca poderá ser vencida pelas “máquinas que aprendem” (learning
machines) com a linguagem lógica que criamos para elas funcionarem. Alguns lucram
alimentando o medo de que seja possível que as máquinas nos substituam. Bobagem.
O metaverso surgiu como “aquilo que todos devem seguir”. Já está aposentado.
Não vendeu. Foi moda e oportunismo.
A aprendizagem humana é social.
Aprendemos na interação com os outros, mudando sempre, formando redes de interesses
comuns. Por isso as redes com que nos comunicamos são “sociais”. Já os agents,
sucessores evoluídos dos robôs do início da era da internet, não. A IA usa a ferramenta das “redes neurais” como
se fossem os neurônios em rede do cérebro que de modo natural estão sempre
mudando. Como s produtos da IA não são dotados da capacidade de adaptação dos
seres vivos, o motor da evolução, nunca chegarão a ser-por-sentir, a criar. Dependem
de nós. Arte é criação do ser humano, único e individual. O mais é moda.
Estética.
Ensinei economia
conectando-me com os alunos numa relação de duas mãos, ida e volta. Aprovar e reprovar
exige a responsabilidade de avaliar, porque saber economia prepara pessoas para
tomarem decisões no mundo de incerteza e risco, ajuda a que não sejam devoradas
pela inflação ou pelas conversas de espertos dos mercados financeiro e político
com promessas de ganhos rápidos.
Vivíamos
hiperinflação, choques econômicos, instabilidade crescente, e foi preciso expandir
a conexão para além da sala de aula e alcançar milhões de pessoas que
precisavam se proteger dos dragões devoradores de renda e gente. Poderosa era a
comunicação do rádio e da TV, e assim fui além.
Hoje é essa profusão de streamings, aulas em EAD, conversas e negócios por whatsapp, fakenews, golpes por internet. No isolamento no celular a pessoa pode tomar decisões que lhe prejudicam. Mudaram os dragões, os vícios, e é preciso ir além. Como chegamos a isso sabemos, mas onde dar ainda não. Daí a crise.
Entender as mudanças é mudar de dentro. Escolas moldam a compreensão do mundo, mas é na interação que se aprende a agir no mundo real. Aprende-se com as crianças, com a natureza, sentindo e observando. Ao permanecermos ativos sempre, a idade nos permite usar a liberdade de ligar o modo “não perturbe” e focar apenas no que importa. Sem pressa. O tempo é o agora. Cubro-me das joias que a maturidade lapida: o saber sentir e o querer saber. Maravilhas da natureza humana. Cuidemos dela.
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