TUDO NO SEU TEMPO E EM SEU LUGAR, DIZ O DITO POPULAR. OU, O TEMPO COMO UMA DIMENSÃO DA REALIDADE


Começo cada dia lendo mensagens, como as do e-mail, onde hoje recebo o artigo de Marcelo Maceo, na revista Inteligência Democrática, sobre o assunto: que mundo é esse? Um trecho.

Uma opinião pública pode ganhar força, reorganizar uma eleição, mudar o clima político de um país, tornar uma pauta incontornável e depois desaparecer. Um acontecimento pode mobilizar milhões de pessoas durante algumas semanas (...). Há emergência, há consequência, há política, mas mundo… exige mais. Mundo pede duração. Não duração no sentido de eternidade, porque mundos morrem. Alguns vivem décadas; outros, meses. Mas precisa ganhar consistência suficiente para que as pessoas possam orientar a própria ação levando em conta que alguma coisa continuará existindo ali amanhã.

Sigo com o café e notícias de fontes que seleciono e que me chegam à mão. Rádio, jornal, celular. Às vezes, toca o telefone também. Pelos dois jornais que assino - único caso neste condomínio de 14 andares e 50 apartamentos – leio notícias sobre os 3 anos do 7 de outubro do massacre do Hamas em Israel, pleno de crueldades nunca dantes vistas devido à exposição pelos terroristas de imagens transmitidas ao vivo pelos instrumentos da comunicação na palma na mão. O mal tornado banal.

Pelo programa preferido escuto na rádio o embate de segundo turno da eleição presidencial sem a presença do centro democrático, embate pleno do uso das ferramentas digitais. Uma notificação toca avisando: o editor postou o miolo do livro que deixamos na gráfica e que lançarei em alguns eventos até a Feira do Livro 2026.

Livros, quem lê? Aliás, livros, quem escreve? Bem, o meu escrevi à mão. É 100% autoral. A capa é esta, e esta sou eu numa pintura livre a partir de uma foto 3 x 4. São crônicas de um mundo real, vivido entre dois séculos, este século XXI. O mundo, como sabemos todos, é um lugar formado por um conjunto de relações que vão mudando no tempo, e existe a partir de um lugar. Here and Now  canta o pássaro convidando à meditação por Aldous Huxley em A Ilha (1962).

 


Trata disso  na sua coluna Futuro do pretérito Roger Lerina, citando o filme A Máquina do Tempo (1960) baseado na ficção de H.G.Wells. Posso não concordar com sua opinião por olhar apenas um lado da moeda política, mas ele representa muitos. Do tempo também trato aqui, e tratam muitos que estão na mesma vibe de tentar entender para agir no mundo em perturbadora transformação na era da IA. Já em 1960 o século havia deixado, a Wells e outros escritores geniais, a experiência de duas guerras mundiais somando-se ao extermínio deixado pela peste do começo do século. Escritores como esses escrevem distopias e utopias, boas de ler. Já para nós seguia a guerra de um Brasil continental da América do Sul: Morte e vida Severina do João Cabral de Melo Neto, em 1955.

Voltemos ao presente. Nos céus do nosso mundo satélites, estrelas que não brilham, maravilhosas máquinas inventadas e construídas pelo homem, passam girando em torno da órbita terrestre. O que fazem não sei. Vão formando uma nova camada de céu, acompanhando o desenvolvimento da tecnologia que se faz como um segundo cérebro, uma terceira mão, sem a qual parece que não somos mais capazes de acessar o Outro que define o Eu a não ser com a mediação de uma máquina. É como é.

Para saber o que é real num mundo em transformação pela IA é urgente gritar perguntas que precisam de respostas. São as perguntas de sempre. É preciso observar a natureza e compreender suas leis. Somos, simplesmente. Pisamos na terra. Nela nos movemos. Flutuamos com ela pelo espaço (in)finito. Podemos fazer o que é preciso para compreendermos a nós e ao mundo mergulhando na filosofia, aquela disciplina que prescruta (sobre) a verdade, (sobre) o real. Filosofar é isso: apresentar perguntas, propor questões, e procurar pelas respostas. Só se faz isso dialogando. O Eu respeitando o Outro. Senão não é a busca da verdade, e sim pequenez de espírito ou a tirania na prática. 

Como fazer isso, como abrir as portas da percepção por nós mesmos em contato com o Outro, formando conexões e assim tecendo redes, construindo pontes, e ir formando um mundo real? Não é preciso buscar o estímulo de qualquer droga externa aos nossos próprios fluidos, como a mescalina de Huxley e seus Admirável Mundo Novo, As Portas da Percepção, O Céu e o Inferno. Contamos “apenas” com tudo que somos, essa maravilhosa criação que é a fonte de todos os mistérios – a vida, na sua interação com outras vidas, esta sim uma ação dos homens criando o mundo social.

Só podemos fazer isso contando com o tempo. Condutor, veículo da experiência. O tempo é uma dimensão da realidade que faz com que tudo o que tem vida possa ter início, fazer germinar a semente, permitir que ela cresça, cumpra seu ciclo, e com o tic tac do relógio a gente perceba isso que é a realidade. A outra dimensão é o lugar, eu, onde piso, de onde vim.

E sempre começamos com a primeira pergunta posta pela filosofia: qual é o sentido dessa vida? Aqui começa o método. Eu, aqui do meu lugar, nesse meu momento, ouso propor: vamos marcar um encontro, nos encontrar na escola, para iniciar um diálogo?

Comentários

  1. O seu artigo, Yeda, promove uma reflexão muito pertinente sobre um mundo em transformação, no qual a banalização da violência, a polarização política e o avanço das ferramentas digitais desafiam nossa capacidade de compreender a realidade.
    Os três anos do massacre do Hamas remetem à crueldade humana exposta em tempo real, enquanto o embate eleitoral sem a presença do centro democrático evidencia os desafios ao diálogo e a crescente influência das ferramentas digitais na disputa política.
    Nesse cenário, você resgata a filosofia, a leitura e a experiência humana como caminhos para questionar, compreender e agir. Sua mensagem é um convite à reflexão: diante da tecnologia e da polarização, precisamos recuperar a capacidade de ouvir o outro, respeitar as diferenças e construir pontes. Afinal, sem diálogo, não há busca da verdade; sem pensamento crítico, corremos o risco de nos tornarmos reféns das máquinas e das nossas próprias convicções.
    É nesse espírito que aguardamos, em breve, o lançamento de seu livro Fios Tecendo Vida, obra autoral que reúne crônicas de um mundo real, vivido entre dois séculos, e nos convida a refletir sobre o tempo, as relações humanas e as transformações da sociedade. Sua apresentação na relevante Feira do Livro de Porto Alegre, RS, será mais uma oportunidade de compartilhar ideias, valorizar a leitura e reafirmar a importância da cultura e do diálogo na construção de um mundo mais humano.

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  2. Interessante, Yeda, tuas referências na literatura utópica, como Wells e Huxley. Muito pelo meu desconhecimento sobre ti, enquanto não governadora.
    O que aumenta a vontade de comprar o livro.

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