Minha amiga Cecília


Hoje nos despedimos da minha amiga-irmã, Cecília Fazzio dos tempos em que, ainda não casadas, trazíamos o nome do pai como sobrenome. Hoje sou Rorato Crusius, e Cecília é Fazzio Massiero. Das lembranças que tenho de minha infância e juventude em São Paulo, nenhuma é tão mais viva e presente quanto a dos anos em que fomos descobrindo de nós e da vida até que, como é da vida, eu fui para Nashville e depois vim para Porto Alegre. Vivo aqui há muito mais tempo do que em São Paulo. Ela permaneceu em São Paulo, e neste mais de 70 anos de distância jamais deixamos de nos falar em cada aniversário, a cada novidade, alegre ou triste, como é natural para os que seguem o fio da vida sem rompê-lo - só o valorizando. Assim foi comigo, assim foi com todos que tiveram a alegria de privar com ela.

Quem tem uma amiga-irmã sabe do que estou falando. Nosso começo foi na rua das Camélias, no bairro com nomes de flores, sem calçamento e muito folguedo na rua, inclusive jogando taco. Festas juninas com a rua fechada para as brincadeiras e o soltar balões. Várias vezes fui para Santos passar uns dias com a família. O pai Roberto nos ensinou a fazer caipirinha, apreciar vinho, descobrir os sabores do aliche italiano e das azeitonas gregas. À noite, naqueles tempos em que se podia viver a noite até o dia raiar sem medo de violência, íamos às calçadas da Ilha Porchat para o footing. Só quem viveu aqueles tempos de pura liberdade, e da mágica dos footings, sabe do que estou falando.

Seu pai, Roberto, nos ensinou muito a cada passo, a cada encontro, sua mãe Adelina com sua discrição e fé, seu irmão Ronaldo, parceiro do Liceu Pasteur, continuando o exemplo dos pais com trabalho social. A cada aniversário do Liceu Pasteur gastava horas chamando onde estivessem os colegas, e organizava o domingo de celebração. Cuidados, sempre. Uma vez fui. O mesmo pátio, a mesma rua, os mesmos companheiros de bancos escolares e de vivência. São, para sempre, os que temos impressos na memória, 

Ronaldo "Passarinho", que deixou não faz muito, participou das tardes quando jogamos cartas aqui em Porto Alegre e ele ligava, com suas brincadeiras marcantes, para dizer que era hora de ajudar no Natal das crianças carentes de quem ele cuidava, no Intituo que leva o nome de sua mãe. Então meus netos, sem nunca o terem visto, o têm como pessoa da casa, que cuida de quem mais precisa.

O mesmo para Cecília.Quando me elegi governadora ela tomou um avião e veio com companheiro de vida toda, Massiero, trazendo um presente único, de quem cuida para sempre das pessoas e das suas lembranças. Trouxeram o vídeo conosco com imagens do Roberto, de nossas casas, desde crianças e depois. Foi ela quem guardou o vídeo do meu casamento em Nashville. Os eleitores não sabem, mas devemos à Cecília e à posse um encontro com esse presente, que está nas redes.

Juntos novamente agora, a família Fazzio sabe que nos deixa as melhores lembranças, dessas que tive a benção de viver com eles, e do bom exemplo que o amor permite seguir. 

Querida Cecília, continuarás a estar todos os dias, como sempre, no meu pensamento.





Comentários

  1. Yeda, querida. Há amizades que o tempo e a distância não diminuem - ao contrário, vão se tornando ainda mais preciosas, porque permanecem ligadas por um fio invisível de afeto, memória e cumplicidade.
    A história de vocês, desde as brincadeiras na Rua das Camélias até mais de 70 anos de vida compartilhada à distância, é um testemunho raro de uma amizade verdadeira, dessas que o coração reconhece como família.
    Que as lembranças de Cecília — tão vivas em você — tragam conforto neste momento de despedida. E que todo o amor que vocês construíram ao longo de uma vida permaneça como presença, mesmo na ausência.
    Um abraço muito carinhoso em você.

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