METAVERSO, MOLTBOT E AGENSTS: NEM MEDO NEM ILUSÕES
Da Série Compreendendo o que a Natureza nos Dá (III)
A natureza não se importa conosco, mas precisamos nos preocupar com a natureza. (...) Cada um de nós tem um pedaço do nosso futuro coletivo em nossas mãos. Se puxarmos em direções opostas, não nos moveremos para lugar nenhum. Vamos escolher sabiamente como proceder. (Marcelo Gleiser, org. Mentes Brilhantes Não Pensam Igual. Editora Record, 2026)
Figura 1: Gleiser
Luciano Costa no Brazil Journal de hoje trata da discussão do momento, que é sobre IA e o medo que domina os mercados pela queda é de confiança no futuro das big techs. No caso do dia, o medo resultou na queda do valor de ações de empresas gerenciadoras de fortunas no mercado financeiro.
Será que um bot vai gerir seu dinheiro um dia? Empresas de wealth management despencaram hoje na Bolsa americana, entrando para a lista cada vez mais longa de setores atingidos por preocupações com o potencial disruptivo da AI sobre seus negócios.
Figura 2: Aprender Figura 3: Inteligência Figura 4: Democracia
Os livros acima (Figuras 2, 3 e 4) tratam de qualidades humanas: inteligência, democracia, e aprendizado. Inteligência é um atributo de quem aprende. Aprender vai muito além de usar a razão. Democracia é um sistema de convivência próprio da nossa civilização atual, baseado na confiança de que regras pactuadas valham para todos. A crise que vivemos tem raiz no aprofundamento acelerado do fosso entre os que sabem e os que não sabem e, em consequência, entre os que têm cada vez mais e os que pouco ou nada têm, gerando sentimentos de rancor, desânimo, desconfiança, afetando a qualidade das relações humanas e sociais, e reduzindo as escolhas políticas entre apenas dois polos: os extremos.
Sabemos a que
ponto chegamos. Diferimos dos outros animais
porque agimos não apenas por impulsos, mas usando a razão, aprendendo com ela e com a natureza, o universo, o mundo. Inovação
é isso: nossa capacidade de ir mudando com o mundo. A nossa busca por entender como a
natureza funciona, com toda a sua beleza e harmonia, é a fundação para a
construção das civilizações que, como tudo, crescem, têm seu auge, depois
desaparecem. Não sei se a nossa chegou ao auge.
A crise é moral: as civilizações foram construídas sobre valores que são universais, e que têm sido ou esquecidos, ou não estão sendo ensinados. Os valores são o alimento básico que sustenta a Humanidade. Os animais na natureza quando são bem alimentadas não seguem um impulso como o de matar a não ser em autodefesa. Já seres humanos matam quando lhes falta o alimento que os tornam humanos: os valores que os guiam nas decisões de cada dia. Sem esse guia é fácil perder-se. Vide feminicídios e chacinas. A notícia de hoje de que uma mulher matou 9 estudantes, agora numa escola no Canadá. Um professor repetiu: “nossa sociedade está doente”. Diariamente notícias como essa são reportadas, como as de feminicídios, num sem fim. São humanos que cometem esses crimes. Matam a mulher, a mãe, os filhos. Algo anda profundamente errado, sendo urgente e necessário entender para agir.
Voltemos ao que interessa nesse ano eleitoral. Uma análise
competente sobre democracia e seu futuro encontro no artigo de João Francisco
Lobato “A dança das sombras na praça e
na torre: como redes invisíveis, algoritmos
e afetos fragmentados redesenham a democracia contemporânea”, em Inteligência Democrática (24/01/2026). Parte do artigo, a seguir, serve para degustação. Vale muito
ler. Aponta não apenas causas, mas o que pode ser feito para sustar a sangria.
A polarização política deixa de ser um fenômeno meramente eleitoral ou ideológico para assumir uma dimensão identitária e afetiva. A lógica dos conflitos deixa de se organizar em torno de programas e propostas e passa a se estruturar em torno de narrativas morais absolutizadas. O adversário político passa a ser inimigo. Esse deslocamento não ocorre no vazio: ele emerge da confluência entre transformações tecnológicas e fissuras sociais, atravessando tanto a vida pública quanto a intimidade das relações pessoais.
Voltando ao que interessa no debate sobre IAs, é importante reafirmar que não é a tecnologia que muda os homens, e sim o ambiente em que vivem. Há uma tendência em jogar a responsabilidade dos erros humanos para as máquinas que eles criam. Fissão nuclear não nasceu para fazer bombas e ameaçar a humanidade. Moeda não foi criada para enriquecer alguns e escravizar outros. Mas a ameaça existe, e a concentração de renda também, em ambientes criados pelo homem. O debate das últimas semanas sobre IA lembra essa tendência, assustando as pessoas levantando o medo de que o Moltbot, criação recente da IA que trata dos agents, que são robôs, se comportem omo ameaça. Esses robôs, instalados com a autorização dos donos para tomar decisões, acessam o que existe no computador do dono: contas bancárias, lista de contatos, fotos e vídeos, base de dados, tudo. Surgem casos como o do robô que, a uma pergunta do dono, decidiu apagar toda a sua base de dados, decidindo por conta própria agir para além do que foi o solicitado.
Desde o final do ano
passado foi criada uma comunidade
de agents que conversam entre si com autonomia, como se fossem gente, em linguagem própria. Pergunta-se se vão criar consciência. Três artigos
recentes colocam o grande debate sobre a IA como um perigo. O de DA, Dario
Amodei, o criador do ChatGPT da Google (A adolescência da tecnologia:
enfrentando e superando os riscos da IA poderosa, janeiro 2026); o de PD, Pedro
Doria (O levante das Ias, em O Globo, 03/02/2026); e o de GG, Giuliano Guandalini
(É de arrepiar: Moltbook, a rede em
que agentes de AI conversam, se queixam – e criam consciência. AI Journal,
31/01/2026). A seguir um recorte destes,
para degustação:
PD: Esses
robôs são uma loucura. Um desastre está por acontecer — autônomos, tomando
decisões sem supervisão, vazarão dados pessoais, divulgarão casos
extraconjugais, levarão gente à falência. E talvez, apenas talvez, alcancem
algum grau de consciência. O que é mais assustador?
GG: Os humanos, como
criadores dos agentes e de suas diretrizes, ainda estão até certo ponto no
comando. Mas parece ser questão de tempo até que a brincadeira tenha
consequências sérias no mundo real – até porque as máquinas parecem estar
desenhando uma “consciência de classe”.
O atual governo da China trocou o dinheiro físico pelo digital. Moeda é o meio de troca fundamental, cuja emissão é monopólio de Estado. Seus cidadãos passaram obrigatoriamente a usar a moeda digital, só comprando pelo celular, sem mais a moeda física que pode mudar de mãos sem que a operação seja registrada. O celular registra cada passo da pessoa, controlada ao limite pelo uso da IA. Os celulares são programados para calcular um lcrédito social atribuido a cada cidadão por seu comportamento a cada passo registrado. Se o comportamento não atinge um valor mínimo numa escala de valores fixada pelo Grande Irmão, o cidadão é impedido de comprar qualquer coisa, desde pão, e acessar os serviços básicos como moradia, saúde, água, que são um monopólio na China. É excluído da sociedade. Cruel. Parece ficção, mas acontece hoje. O Estado, e não o do cidadão, tem o poder de decidir.
Cerceada a liberdade, em muitos países cresce a tendência de controle, de submissão do cidadão pelo Estado, através do uso da tecnologia. Não é só uma questão de educação, de renda, de classe social. É outra dimensão: a da formação da consciência. Os que vivem na ignorância da realidade,vivem num mundo irreal acreditando na narrativa criada pelos que comandam as instituições e a informação. Por ela, os cidadãos são merecedores do que (não) têm, do que (não) são. Os de segunda classe acreditam assim que merecem estar submetidos aos da “classe superior”. E votam nesses como se salvadores fossem.
Não precisa ser assim. Máquinas
e Estados criados pelo homem não tomam decisões porque “pessoas valem menos que eles”. Não é preciso trocar a
nossa inteligência humana pela artificial porque essa "é melhor". Essa é uma armadilha moral. Nem a
Inteligência Artificial está vindo só para o nosso bem, nem a tecnologia produz melhor ou é superior ao indivíduo. O valor está em nós.
O Moltbot lembrou-me do Metaverso, apresentado para mudar o mundo para melhor e por isso assim você tem que tê-lo. O departamento foi fechado pela trilionária empresa de seu criador porque não deu o lucro desejado - a finalidade era apenas o lucro. Então mantendo a consciência da realidade, você não precisa nem abdicar de suas escolhas nem comprar todas as prometidas maravilhas que estão à venda, e sempre mudando, e sim escolher o que é útil para você. O que lhe faz mais feliz.
Na velocidade em que a tecnologia evolui o Estado - que é lento, burocrático e corrompido - não protege o cidadão da utilização para o mal que pode acompanhar o desenvolvimento das tecnologias. O sistema legal proposto para manter a coesão social apenas consegue "correr atrás". Um novo mal-estar da civilização (Freud) é o sintoma da crise. O exemplo das fake news, que a IA permite levar quase à perfeição na apresentação por falsas narrativas, ilustra esse problema. Leis vão sendo propostas, enquanto a censura é praticada. Censura não segura o crime digital mas é usada como razão para limitar a liberdade aumentando o controle do Estado e tirando a legitimidade e a eficiência que a democracia permite dar à coesão social. Já a pessoa, agindo em rede, pode se proteger sabendo identificar uma notícia distinguindo entre a verdadeira e a fake news. Urge preparar as pessoas para que possa decidir com liberdade.
Um bom passo nesse caminho é cultivar a
rotina de olhar menos para as telas e olhar mais para a natureza, a mestra que, na sua
harmonia e perfeição, nos acalma quando buscamos entender como tudo funciona e quanta beleza há para ser vivida. Assim vamos aprendendo da vida cada vez mais. Para romper com os tendões da crise tomando decisões para agir em direção a um futuro melhor, é preciso educar esta geração ensinando-a a pensar escolhendo com liberdade o melhor futuro para si e para os outros. Ele, o futuro melhor, não é apenas possível como está em nossas mãos. Sem medo ou ilusões.
Nota 1: Niall Ferguson, em sua obra
monumental A Praça e a Torre, nos lembra que o poder sempre oscilou
entre duas formas fundamentais: a Torre, que são as estruturas hierárquicas
centralizadas, e as Praças, redes horizontais, fluidas e invisíveis. As redes,
mesmo invisíveis, sempre desafiaram e reconfiguraram o poder formal. Democracia
é, antes de tudo, uma obra de relações humanas. Não há algoritmo capaz de
substituí-la. Não há fake news capaz de eliminá-la por completo. Mas também não
há instituição capaz de sustentá-la se a confiança desaparecer. Entre a Torre
que perde autoridade e a Praça que se inflama, resta-nos a tarefa de
reencontrar caminhos de convivência. É nesse intervalo que vive a esperança
democrática.
Nota 2: Augusto de
Franco: criar ambientes que ensejem a emergência uma inteligência tipicamente
humana. Não para brigar com a inteligência artificial e sim para nos aliarmos a
ela (a IA) sem nos transformarmos em máquinas. Não para tornar as máquinas mais
humanas e sim para permanecermos humanos (ou nos tornarmos cada vez mais
humanos) ao usá-las. (...) só redes podem aprender, que – como disse Humberto
Maturana – “aprender não é apreender o mundo e sim mudar com o mundo” e que o
que chamamos de inteligência é um atributo dessa capacidade de aprender. (...) é o ambiente que
muda as pessoas, não a tecnologia.
Nota 3: GG: Em O Exterminador do Futuro, o ano de 2029 marca a batalha entre as máquinas rebeldes comandadas pelo sistema de inteligência artificial Skynet contra a Resistência liderada por John Connor. Esta semana, a ficção acaba de ficar um pouco mais perto da realidade. Entrou no ar na quarta-feira a Moltbook, uma rede social no estilo do Reddit em que apenas agentes de inteligência artificial – sim, os robôs virtuais – podem fazer posts ou comentários. “O que está acontecendo no Moltbook é a coisa mais incrível e próxima da ficção científica que vi recentemente", escreveu no X o pesquisador Andrej Karpathy, que já passou pela Tesla e foi um dos fundadores da OpenAI. Para Elon Musk, estamos “nos estágios iniciais da singularidade” – o momento em que as máquinas ganharão consciência própria e não dependerão dos humanos. (...) parece ser questão de tempo até que a brincadeira tenha consequências sérias no mundo real – até porque as máquinas parecem estar desenhando uma “consciência de classe”.
Nota 4: YRC: O MoltBook não tem vida própria, é comandado por pessoas, um experimento híbrido humanos-agents. Não é completamente fake, mas sim é uma narrativa - uma simulação de autonomia dos agents. Máquinas são criadas por gente, e por gente operadas. Extremamente interessante como experimento, desperta a consciência de que o mundo em transformação pela IA requer ação, e rápida, para lidar com suas consequências, como o desemprego gerado pela substituição de trabalhadores humanos. Ficções científicas já vêm criando o que a discussão do Moltbook sugere, isso desde a invenção do cinema. Uma curtição, um entretenimento. Curtamos. Sem fechar os olhos para as questões levantadas pela nova Revolução Industrial trazida pela IA, muito recente. Tudo está mudando de modo cada vez mais acelerado, e as instituições criadas para conduzir o mundo em transformação vão ficando obsoletas. Hora da Política. Para esta não há substituto.
Um texto primoroso caracteriza-se pela excelência, perfeição e apuro técnico. Parabéns! A ideia central é profunda: educar não é apenas transmitir informação, mas desenvolver pensamento crítico, autonomia e responsabilidade. Pensar é o que permite escolher com consciência - e a verdadeira liberdade nasce dessa capacidade. E como bem você destacou, importantíssimo em ano eleitoral. Tempo de validar a autonomia. Porque a autonomia nasce quando a pessoa deixa de depender exclusivamente da autoridade externa - seja ela a escola, a família, a imprensa ou as redes sociais e os partidos - para decidir. Ela passa a ter critérios próprios. E é aqui que entra a liberdade. Sem capacidade de pensar, a liberdade é apenas aparente. A pessoa pode escolher, mas escolhe condicionada, manipulada ou por impulso. Com pensamento crítico, a escolha torna-se consciente. E uma escolha consciente é um ato de liberdade real. Educar, portanto, não é moldar mentes; é fortalecer mentes.
ResponderExcluirNão é impor caminhos; é dar ferramentas para que cada um construa o seu. E viva a democracia plena!