METAVERSO, MOLT E OUTRS
COISAS PASSAGEIRAS: NEM MEDO NEM ILUSÕES
DA SÉRIE AS PISTAS QUE
A NATUREZA NOS DÁ (II)
Será que um bot vai gerir seu dinheiro um dia? Empresas de wealth management despencaram hoje na Bolsa americana, entrando para a lista cada vez mais longa de setores atingidos por preocupações com o potencial disruptivo da AI sobre seus negócios.
Figura 1: Aprender Figura 2: Inteligência Figura 3: Democracia
Nas crônicas deste blog
cito frequentemente os livros acima. Analisam as qualidades humanas da
inteligência, da democracia, e do aprendizado. Aprender vai muito além de usar
a razão. Inteligência é um atributo de quem aprende. Democracia é um sistema de
convivência baseado na confiança de que regras pactuadas valham para todos,
próprio da nossa civilização atual.
Vou voltar a
citá-los tratando da crise que vivemos, e que tem uma raiz no aprofundamento
acelerado do fosso entre os que sabem e os que não sabem e, em consequência,
entre os que têm cada vez mais e os que pouco têm. A situação gera sentimentos
como rancor, desânimo, e desconfiança, afetando a qualidade das relações
humanas e sociais, e reduzindo as escolhas políticas entre apenas dois polos:
os extremos.
Sabemos a que
ponto chegamos: estamos deixando de ser humanos(Figura 1). Diferimos dos outros animais
porque agimos não apenas por impulsos, mas usando a razão, aprendendo com ela e com a natureza e o universo, com o mundo, e mudando com ele. Inovação
é isso: nossa capacidade de ir mudando com o mundo. A nossa eterna busca por entender como a
natureza funciona com toda a sua beleza e harmonia é a fundação para a
construção das civilizações que, como tudo, crescem, têm seu auge, depois
desaparecem. Não sei se a nossa chegou ao auge.
E porque chegamos até este ponto também sabemos. A crise é moral: os valores da civilização foram ou esquecidos, ou não estão sendo ensinados. Feras bem alimentadas não seguem o impulso de matar, a não ser em autodefesa. Mas seres humanos matam por prazer quando lhes falta o alimento que os tornam humanos: os valores que nos guiam nas decisões de cada dia. Vide a notícia de hoje de que uma mulher matou 9 estudantes, agora numa escola no Canadá, e em que o professor repetiu: “nossa sociedade está doente”. Repetem-se notícias como essa, e as do feminicídio, sem fim. São humanos que cometem esses crimes.
Voltemos ao que mais interessa nesse ano eleitoral. Uma análise
competente sobre democracia e seu futuro encontro no artigo de João Francisco
Lobato “A dança das sombras na praça e
na torre: como redes invisíveis, algoritmos
e afetos fragmentados redesenham a democracia contemporânea”, em Inteligência Democrática (24/01/2026). Uma parte do artigo, a seguir, serve para degustação. Vale muito
ler. Aponta não apenas as causas, mas o que pode ser feito para sustar a sangria.
A polarização política deixa de
ser um fenômeno meramente eleitoral ou ideológico para assumir uma dimensão
identitária e afetiva. A lógica dos conflitos deixa de se organizar em torno de
programas e propostas e passa a se estruturar em torno de narrativas morais
absolutizadas. O adversário político passa a ser inimigo. Esse deslocamento não
ocorre no vazio: ele emerge da confluência entre transformações tecnológicas e
fissuras sociais, atravessando tanto a vida pública quanto a intimidade das
relações pessoais.
E voltemos ao que mais interessa no debate sobre IAs. É importante reafirmar que
não é a tecnologia que muda os homens, e sim o ambiente no seu mais amplo
conceito, expandindo-se do ambiente natural para aquele de nossas relações. Há uma tendência em jogar a responsabilidade dos erros humanos para
as máquinas que eles criam. Fissão nuclear não nasceu para fazer bombas e
ameaçar a humanidade. Moeda não foi
criada para enriquecer alguns e escravizar outros. Mas o debate das últimas
semanas sobre IA lembra essa tendência, assustando as pessoas levantando o medo de que o Moltbot, criação recente da IA que trata dos agentes,
que são robôs, como ameaça. Esses robôs, instalados com a autorização dos donos para
tomar decisões, acessam o que existe no computador: contas bancárias, lista de
contatos, fotos e vídeos, base de dados, tudo. Surgem casos como o do robô que,
a uma pergunta do dono, decidiu apagar toda a sua base de dados. Substituiu o
dono decidindo por conta própria sobre algo que não foi o solicitado.
Desde o final do ano
passado um novo capítulo foi adicionado a essa novela: foi criada uma comunidade
de agents que conversam entre si com autonomia, como se fossem gente. Criada por gente, claro, uma empresa. Vão criar consciência? Três artigos
recentes colocam o grande debate sobre o perigo ou não das IAs. O de Dario
Amodei, o criador do ChatGPT da Google (A adolescência da tecnologia:
enfrentando e superando os riscos da IA poderosa, janeiro 2026); o de Pedro
Doria (O levante das Ias, em O Globo, 03/02/2026); e o de Giuliano Guandalini
(É de arrepiar: Moltbook, a rede em
que agentes de AI conversam, se queixam – e criam consciência. AI Journal,
31/01/2026). A seguir um recorte destes,
para mais uma degustação:
PD: Esses
robôs são uma loucura. Um desastre está por acontecer — autônomos, tomando
decisões sem supervisão, vazarão dados pessoais, divulgarão casos
extraconjugais, levarão gente à falência. E talvez, apenas talvez, alcancem
algum grau de consciência. O que é mais assustador?
GG: Os humanos, como
criadores dos agentes e de suas diretrizes, ainda estão até certo ponto no
comando. Mas parece ser questão de tempo até que a brincadeira tenha
consequências sérias no mundo real – até porque as máquinas parecem estar
desenhando uma “consciência de classe”.
Veja-se o caso da China de
hoje, que trocou o dinheiro físico pelo digital, e seus cidadãos só compram obrigatoriamente através do celular. Não existe mais moeda. No celular se registra cada passo da
pessoa, que assim é controlada. Os celulares vêm programados para calcular o
crédito social de cada cidadão por seu comportamento a cada passo registrado. Se o comportamento não atinge um valor mínimo numa escala de valores
fixada pelo Grande Irmão, o cidadão não consegue mais comprar nada nem
usar os serviços básicos como moradia, saúde, água, que são um monopólio na
China. É excluído da sociedade. Cruel. Parece ficção, mas acontece hoje. O direito de existir passou a ser do Estado, não o do cidadão, que não
tem direito a suas escolhas. O poder se concentrou no Estado.
Não é só uma questão de grau de educação, de
renda, de classe social. É outra dimensão: é a da consciência da realidade. Os
que vivem num mundo irreal obedecem, acreditando que merecem todos os castigos
por existir. Não tem valores que os
sustentem. Segundo a narrativa criada pelos que comandam as instituições e a
informação, os cidadãos são merecedores do que têm, do que são. Os de segunda
classe acreditam assim que merecem estar submetidos à “classe superior”. E votam nesses como se salvadores fossem.
Não precisa ser assim. Máquinas
e Estados por nós criados não podem tomar decisões por nós porque “valemos
menos que elas”. Nem é preciso trocar a
nossa inteligência pela artificial porque essa "é melhor". Essa é uma armadilha moral. Nem a
Inteligência Artificial está vindo só para o nosso bem, nem a tecnologia é
superior ao indivíduo. O valor está em nós.
O Moltbot lembrou-me do
Metaverso, que estava chegando para mudar o mundo e a verdade era que você tem que
tê-lo. O departamento foi fechado
pela trilionária empresa de seu criador porque não deu o lucro desejado. Mantenhamos a consciência viva. Você não precisa comprar as maravilhas que estão vendendo.
Analise e compre apenas o que é útil para você. O que lhe faz mais feliz.
Para isso é bom cultivar a
rotina de olhar menos para as telas, e olhar mais para a natureza que, na sua
harmonia e perfeição, nos mostra quanta beleza há para ser vivida, com a
tranquilidade de saber que nunca saberemos tudo do universo. Isso como estímulo para continuarmos a aprender, sempre.
Nota 1: Niall Ferguson, em sua obra
monumental A Praça e a Torre, nos lembra que o poder sempre oscilou
entre duas formas fundamentais: a Torre, que são as estruturas hierárquicas
centralizadas, e as Praças, redes horizontais, fluidas e invisíveis. As redes,
mesmo invisíveis, sempre desafiaram e reconfiguraram o poder formal. Democracia
é, antes de tudo, uma obra de relações humanas. Não há algoritmo capaz de
substituí-la. Não há fake news capaz de eliminá-la por completo. Mas também não
há instituição capaz de sustentá-la se a confiança desaparecer. Entre a Torre
que perde autoridade e a Praça que se inflama, resta-nos a tarefa de
reencontrar caminhos de convivência. É nesse intervalo que vive a esperança
democrática.
Nota 2: Augusto de
Franco: criar ambientes que ensejem a emergência uma inteligência tipicamente
humana. Não para brigar com a inteligência artificial e sim para nos aliarmos a
ela (a IA) sem nos transformarmos em máquinas. Não para tornar as máquinas mais
humanas e sim para permanecermos humanos (ou nos tornarmos cada vez mais
humanos) ao usá-las. (...) só redes podem aprender, que – como disse Humberto
Maturana – “aprender não é apreender o mundo e sim mudar com o mundo” e que o
que chamamos de inteligência é um atributo dessa capacidade de aprender. (...) é o ambiente que
muda as pessoas, não a tecnologia.
Nota
3: GG: Em O Exterminador do Futuro, o
ano de 2029 marca a batalha entre as máquinas rebeldes comandadas pelo sistema
de inteligência artificial Skynet contra a Resistência liderada por John
Connor. Esta semana, a ficção acaba de ficar um pouco mais perto da
realidade.Entrou no ar na quarta-feira a Moltbook, uma rede social no estilo do
Reddit em que apenas agentes de inteligência artificial – sim, os robôs
virtuais – podem fazer posts ou comentários. Humanos são bem-vindos apenas para
observar, sem interagir. “O que está acontecendo no Moltbook é a coisa mais
incrível e próxima da ficção científica que vi recentemente,” escreveu no X o
pesquisador Andrej Karpathy, que já passou pela Tesla e foi um dos fundadores
da OpenAI. Para Elon Musk, estamos “nos estágios iniciais da
singularidade” – o momento em que as máquinas ganharão consciência própria e
não dependerão dos humanos. O Moltbook foi criado pelo programador e
empreendedor de tecnologia Matt Schlicht, CEO da Octane AI – uma plataforma
para marcas de e-commerce criarem experiências de venda personalizadas. A
operação do site é quase toda automatizada, sob o comando do bot pessoal de
Schlicht, o Clawd Clawderberg. Schlicht fez este bot usando um novo
software criado apenas dois meses atrás – e que é a causa fundamental do furor
no Vale. Originalmente chamado de Clawd (até que os advogados da Anthropic,
dona do LLM Claude, entraram no circuito para proteger a marca), o software
mudou brevemente de nome para Moltbot, e agora se chama OpenClaw. O OpenClaw –
que tem como símbolo uma lagostinha – foi criado por Peter Steinberger e se
tornou um dos maiores projetos open source que o mundo já viu, atingindo mais
de 130 mil estrelas (equivalentes a “likes”) no portal de desenvolvedores
Github. (Para efeito de comparação, o bitcoin tem 88 mil estrelas apenas.) Os
humanos, como criadores dos agentes e de suas diretrizes, ainda estão até certo
ponto no comando. Mas parece ser questão de tempo até que a brincadeira tenha
consequências sérias no mundo real – até porque as máquinas parecem estar
desenhando uma “consciência de classe”.
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