METAVERSO, MOLT E OUTRS COISAS PASSAGEIRAS: NEM MEDO NEM ILUSÕES

DA SÉRIE AS PISTAS QUE A NATUREZA NOS DÁ (II)

 11 DE FEVEREIRO DE 2026

 O artigo de hoje de Luciano Costa no Brazil Journal entra para a discussão do momento, que é sobre IA e o medo que domina os mercados pela possibilidade de a IA substituir as pessoas. A queda é de confiança no futuro das big techs. No caso do dia, o medo resultou na queda do valor de ações de empresas gerenciadoras de fortunas no mercado financeiro.

Será que um bot vai gerir seu dinheiro um dia? Empresas de wealth management despencaram hoje na Bolsa americana, entrando para a lista cada vez mais longa de setores atingidos por preocupações com o potencial disruptivo da AI sobre seus negócios.


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O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.Texto preto sobre fundo branco

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.Tela de computador com texto preto sobre fundo branco

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

     Figura 1: Aprender              Figura 2: Inteligência        Figura 3: Democracia

Nas crônicas deste blog cito frequentemente os livros acima. Analisam as qualidades humanas da inteligência, da democracia, e do aprendizado. Aprender vai muito além de usar a razão. Inteligência é um atributo de quem aprende. Democracia é um sistema de convivência baseado na confiança de que regras pactuadas valham para todos, próprio da nossa civilização atual.

Vou voltar a citá-los tratando da crise que vivemos, e que tem uma raiz no aprofundamento acelerado do fosso entre os que sabem e os que não sabem e, em consequência, entre os que têm cada vez mais e os que pouco têm. A situação gera sentimentos como rancor, desânimo, e desconfiança, afetando a qualidade das relações humanas e sociais, e reduzindo as escolhas políticas entre apenas dois polos: os extremos.

Sabemos a que ponto chegamos: estamos deixando de ser humanos(Figura 1). Diferimos dos outros animais porque agimos não apenas por impulsos, mas usando a razão, aprendendo com ela e com a natureza e o universo, com o mundo, e mudando com ele. Inovação é isso: nossa capacidade de ir mudando com o mundo.  A nossa eterna busca por entender como a natureza funciona com toda a sua beleza e harmonia é a fundação para a construção das civilizações que, como tudo, crescem, têm seu auge, depois desaparecem. Não sei se a nossa chegou ao auge.

E porque chegamos até este ponto também sabemos. A crise é moral: os valores da civilização foram ou esquecidos, ou não estão sendo ensinados. Feras bem alimentadas não seguem o impulso de matar, a não ser em autodefesa. Mas seres humanos matam por prazer quando lhes falta o alimento que os tornam humanos: os valores que nos guiam nas decisões de cada dia. Vide a notícia de hoje de que uma mulher matou 9 estudantes, agora numa escola no Canadá, e em que o professor repetiu: “nossa sociedade está doente”. Repetem-se notícias como essa, e as do feminicídio, sem fim. São humanos que cometem esses crimes. 

Voltemos ao que mais interessa nesse ano eleitoral. Uma análise competente sobre democracia e seu futuro encontro no artigo de João Francisco Lobato “A dança das sombras na praça e na torre: como redes invisíveis, algoritmos e afetos fragmentados redesenham a democracia contemporânea”, em Inteligência Democrática (24/01/2026). Uma parte do artigo, a seguir, serve para degustação. Vale muito ler. Aponta não apenas as causas, mas o que pode ser feito para sustar a sangria.

A polarização política deixa de ser um fenômeno meramente eleitoral ou ideológico para assumir uma dimensão identitária e afetiva. A lógica dos conflitos deixa de se organizar em torno de programas e propostas e passa a se estruturar em torno de narrativas morais absolutizadas. O adversário político passa a ser inimigo. Esse deslocamento não ocorre no vazio: ele emerge da confluência entre transformações tecnológicas e fissuras sociais, atravessando tanto a vida pública quanto a intimidade das relações pessoais.

E voltemos ao que mais interessa no debate sobre IAs. É importante reafirmar que não é a tecnologia que muda os homens, e sim o ambiente no seu mais amplo conceito, expandindo-se do ambiente natural para aquele de nossas relações. Há uma tendência em jogar a responsabilidade dos erros humanos para as máquinas que eles criam. Fissão nuclear não nasceu para fazer bombas e ameaçar a humanidade.  Moeda não foi criada para enriquecer alguns e escravizar outros. Mas o debate das últimas semanas sobre IA lembra essa tendência, assustando as pessoas levantando o medo de que o Moltbot, criação recente da IA que trata dos agentes, que são robôs, como ameaça. Esses robôs, instalados com a autorização dos donos para tomar decisões, acessam o que existe no computador: contas bancárias, lista de contatos, fotos e vídeos, base de dados, tudo. Surgem casos como o do robô que, a uma pergunta do dono, decidiu apagar toda a sua base de dados. Substituiu o dono decidindo por conta própria sobre algo que não foi o solicitado.

Desde o final do ano passado um novo capítulo foi adicionado a essa novela: foi criada uma comunidade de agents que conversam entre si com autonomia, como se fossem gente. Criada por gente, claro, uma empresa. Vão criar consciência? Três artigos recentes colocam o grande debate sobre o perigo ou não das IAs. O de Dario Amodei, o criador do ChatGPT da Google (A adolescência da tecnologia: enfrentando e superando os riscos da IA poderosa, janeiro 2026); o de Pedro Doria (O levante das Ias, em O Globo, 03/02/2026); e o de Giuliano Guandalini  (É de arrepiar: Moltbook, a rede em que agentes de AI conversam, se queixam – e criam consciência. AI Journal, 31/01/2026).  A seguir um recorte destes, para mais uma degustação: 

PD: Esses robôs são uma loucura. Um desastre está por acontecer — autônomos, tomando decisões sem supervisão, vazarão dados pessoais, divulgarão casos extraconjugais, levarão gente à falência. E talvez, apenas talvez, alcancem algum grau de consciência. O que é mais assustador?

 

GG: Os humanos, como criadores dos agentes e de suas diretrizes, ainda estão até certo ponto no comando. Mas parece ser questão de tempo até que a brincadeira tenha consequências sérias no mundo real – até porque as máquinas parecem estar desenhando uma “consciência de classe”.

 Por um lado, o conhecimento da revolucionária tecnologia deste milênio não pertence à maior parte dos 8 bilhões de seres humanos que a utilizam e são afetados pelo modo de vida resultante da aplicação da IA em tudo. Esse desconhecimento não vem de hoje nem vem deste governo. Por um pacto social construído no passado, ao Estado foram concedidos poderes exclusivos como o de cobrar impostos, instituir a Justiça, comandar exércitos, fabricar a moeda. Nem sempre para distribuir seus frutos a todos. Como se está dando aos agentes? perguntam alguns.

Veja-se o caso da China de hoje, que trocou o dinheiro físico pelo digital, e seus cidadãos só compram obrigatoriamente através do celular. Não existe mais moeda. No celular se registra cada passo da pessoa, que assim é controlada. Os celulares vêm programados para calcular o crédito social de cada cidadão por seu comportamento a cada passo registrado. Se o comportamento não atinge um valor mínimo numa escala de valores fixada pelo Grande Irmão, o cidadão não consegue mais comprar nada nem usar os serviços básicos como moradia, saúde, água, que são um monopólio na China. É excluído da sociedade. Cruel. Parece ficção, mas acontece hoje. O direito de existir passou a ser do Estado, não o do cidadão, que não tem direito a suas escolhas. O poder se concentrou no Estado.

 Não é só uma questão de grau de educação, de renda, de classe social. É outra dimensão: é a da consciência da realidade. Os que vivem num mundo irreal obedecem, acreditando que merecem todos os castigos por existir.  Não tem valores que os sustentem. Segundo a narrativa criada pelos que comandam as instituições e a informação, os cidadãos são merecedores do que têm, do que são. Os de segunda classe acreditam assim que merecem estar submetidos à “classe superior”.  E votam nesses como se salvadores fossem.

Não precisa ser assim. Máquinas e Estados por nós criados não podem tomar decisões por nós porque “valemos menos que elas”.  Nem é preciso trocar a nossa inteligência pela artificial porque essa "é melhor". Essa é uma armadilha moral. Nem a Inteligência Artificial está vindo só para o nosso bem, nem a tecnologia é superior ao indivíduo. O valor está em nós.

O Moltbot lembrou-me do Metaverso, que estava chegando para mudar o mundo e a verdade era que você tem que tê-lo.  O departamento foi fechado pela trilionária empresa de seu criador porque não deu o lucro desejado. Mantenhamos a consciência viva. Você não precisa comprar as maravilhas que estão vendendo. Analise e compre apenas o que é útil para você. O que lhe faz mais feliz.

Para isso é bom cultivar a rotina de olhar menos para as telas, e olhar mais para a natureza que, na sua harmonia e perfeição, nos mostra quanta beleza há para ser vivida, com a tranquilidade de saber que nunca saberemos tudo do universo. Isso como estímulo para continuarmos a aprender, sempre.

Nota 1:  Niall Ferguson, em sua obra monumental A Praça e a Torre, nos lembra que o poder sempre oscilou entre duas formas fundamentais: a Torre, que são as estruturas hierárquicas centralizadas, e as Praças, redes horizontais, fluidas e invisíveis. As redes, mesmo invisíveis, sempre desafiaram e reconfiguraram o poder formal. Democracia é, antes de tudo, uma obra de relações humanas. Não há algoritmo capaz de substituí-la. Não há fake news capaz de eliminá-la por completo. Mas também não há instituição capaz de sustentá-la se a confiança desaparecer. Entre a Torre que perde autoridade e a Praça que se inflama, resta-nos a tarefa de reencontrar caminhos de convivência. É nesse intervalo que vive a esperança democrática.

Nota 2: Augusto de Franco: criar ambientes que ensejem a emergência uma inteligência tipicamente humana. Não para brigar com a inteligência artificial e sim para nos aliarmos a ela (a IA) sem nos transformarmos em máquinas. Não para tornar as máquinas mais humanas e sim para permanecermos humanos (ou nos tornarmos cada vez mais humanos) ao usá-las. (...) só redes podem aprender, que – como disse Humberto Maturana – “aprender não é apreender o mundo e sim mudar com o mundo” e que o que chamamos de inteligência é um atributo dessa capacidade de aprender. (...) é o ambiente que muda as pessoas, não a tecnologia.

 

Nota 3: GG: Em O Exterminador do Futuro, o ano de 2029 marca a batalha entre as máquinas rebeldes comandadas pelo sistema de inteligência artificial Skynet contra a Resistência liderada por John Connor. Esta semana, a ficção acaba de ficar um pouco mais perto da realidade.Entrou no ar na quarta-feira a Moltbook, uma rede social no estilo do Reddit em que apenas agentes de inteligência artificial – sim, os robôs virtuais – podem fazer posts ou comentários. Humanos são bem-vindos apenas para observar, sem interagir. “O que está acontecendo no Moltbook é a coisa mais incrível e próxima da ficção científica que vi recentemente,” escreveu no X o pesquisador Andrej Karpathy, que já passou pela Tesla e foi um dos fundadores da OpenAI. Para Elon Musk, estamos “nos estágios iniciais da singularidade” – o momento em que as máquinas ganharão consciência própria e não dependerão dos humanos. O Moltbook foi criado pelo programador e empreendedor de tecnologia Matt Schlicht, CEO da Octane AI – uma plataforma para marcas de e-commerce criarem experiências de venda personalizadas. A operação do site é quase toda automatizada, sob o comando do bot pessoal de Schlicht, o Clawd Clawderberg. Schlicht fez este bot usando um novo software criado apenas dois meses atrás – e que é a causa fundamental do furor no Vale. Originalmente chamado de Clawd (até que os advogados da Anthropic, dona do LLM Claude, entraram no circuito para proteger a marca), o software mudou brevemente de nome para Moltbot, e agora se chama OpenClaw. O OpenClaw – que tem como símbolo uma lagostinha – foi criado por Peter Steinberger e se tornou um dos maiores projetos open source que o mundo já viu, atingindo mais de 130 mil estrelas (equivalentes a “likes”) no portal de desenvolvedores Github. (Para efeito de comparação, o bitcoin tem 88 mil estrelas apenas.) Os humanos, como criadores dos agentes e de suas diretrizes, ainda estão até certo ponto no comando. Mas parece ser questão de tempo até que a brincadeira tenha consequências sérias no mundo real – até porque as máquinas parecem estar desenhando uma “consciência de classe”.

 

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