A CRIANÇA QIUE NÃO FUI PEL NAS HISTÓRIAS QUE NÃO ME CONTARAM

 

Literatura infantil. O hábito de ler para as crianças antes de dormir não vivi. Viver em cidade grande com família grande levou a se fazer tudo de modo coletivo. Já com em cidades e famílias menores, ler para as crianças é parte do modo de vida. Nas escolas, desde as de primeira infância, essa lacuna que os pais no lufa-lufa da vida não conseguem cobrir faz parte da formação, do método. Só de ter uma biblioteca como espaço da escola, mesmo sem ler, a criança aprende mais. Com biblioteca em casa, mais ainda.

As melhores memórias se formam na infância ouvindo histórias e, usando o dom da imaginação, criamos e vivemos em um mundo mágico. Se não ouvi histórias, quando criança na TV recém acessível via desenhos e programas como O Sítio do Picapau Amarelo, um clássico da literatura infantil bem brasileira de Monteiro Lobato.

Se não ouvia histórias contadas que a imaginação podia transformar em mundos próprios, em contos de fada, pude receber das telas farto material, e dos livros farto material porque já sabia ler. Livros nos levam a mundos imaginados, e com que poder! Sabia histórias, não as imaginava, mas viajava nas suas asas lendo. Depois, alimentado o cérebro com esses sentidos e emoções, quando dormimos os sonhos se encarregam de nos brindar com criações livres, libertadoras. Fazemos cinema dormindo, como não. Depois, na vigília, somos capazes de captá-los em escritos, pinturas, músicas. Belas artes.

Ao longo do longo tempo em que corri de um lado para outro, todos os dias, com a necessidade de trabalhar, intensamente trabalhar, principalmente pelo kindle nas longas esperas em aeroportos e constantes viagens de avião, acompanhei em livros que são hoje literatura e viraram clássicos. Atemporais. Sempre lendo. Harry Potter, O Mágico de Oz, Guerra nas Estrelas, O Senhor dos Anéis, muitos. Levados ao cinema, ao celular, e à TV, democratizados assim, puderam seguir povoando o mundo das crianças. E dos adultos.

Meus filhos tiveram uma infância diferente, graças ao pai criativo que inventava coisas de criança seguindo a linhagem de sua mãe, educadora e professora do ensino fundamental. Professora emérita, por tudo que desenvolveu. Frequentando boas escolas desde a creche e a maternal, receberam muito da literatura infantil como parte de sua formação. Em casa tiveram o mesmo ambiente com a biblioteca que fomos formando e o acesso a outras fontes pelo desenvolvimento da TV e ferramentas de contar histórias como CDs e DVDs. De minha parte, seguindo a linhagem de minha mãe, vivi com eles as tantas peças dos grupos de teatro infantil e as sessões de cinema das tantas salas de Porto Alegre. Mais a Feira do Livro, claro, e os canais de TVs se multiplicando.

Hoje, depois de muito viver, de muitas terapias que experimentei, do tanto que aprendi com os outros, dimensiono melhor a importância da leitura de contos de fadas para a formação da criança integral. Curto muito tudo, como criança. Se não tive em tempo, o tempo é agora para ter. Abençoada pela longevidade, nesta época em que posso beber da literatura infantil assistindo streamings e indo nos cinemas da vida, acompanhando as análises oferecidas pelos sites e pelo youtube, curto. Aprendo, deliciando-me com Alice no País das Maravilhas, Sherazade e as 1001 noites, e por aí vai.


Agora, em meio aos estudos de filosofia que me levam aos gregos, e ao desafio de colocar em livro os fios que tecem a vida em memórias que compartilho, recebo os melhores frutos do nosso tempo na forma de arte. Do desenho ao cinema, vou descobrindo a delicadeza da cultura japonesa nos filmes do Miyasaki. Vou às feiras de anime, que me lembram a Rua da Liberdade por onde andei muito em São Paulo. Ganhei de minha filha no aniversário deste ano o livro no qual mergulho, deliciada, maravilhada, com o que o gênio nos premia. De onde vem, o que conta o gênio, aos interessados sugiro ler. Animação pelo Studio Ghibli que fundou, Miyasaki é bem diferente da Odisseia de Nolan com seu IMAX, mas igualmente um clássico. Sugiro ler. E ver. Um mundo e muitos mundos à disposição. Bons tempos de arte, esse nosso.



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