A CRIANÇA QUE NÃO FUI PELAS HISTÓRIAS QUE NÃO ME CONTARAM

 

O hábito de ler para as crianças antes de dormir não vivi. As histórias da literatura infantil passaram ao largo da minha infância. Não lembro de muitas coisas da tenra infância, mas lembro bem das formigas gigantes de nossa casa em Belo Horizonte. Lá nasceram meus dois irmãos menores, Lupércio e Thais. Pouco depois do último parto minha mãe adoeceu, e voltamos para São Paulo, divididos em casas de tios por alguns meses. Depois tinha uma lacuna nas lembranças, causado pelo trauma daquela curta separação. Terapias me ensinaram a identificar e vencer fantasmas daquele tempo.

Na cidade grande com família grande, muitos primos e tios, aprendemos o modo coletivo de viver. De pessoal, tímida, foi com diários que troquei confidências e registrei meu cotidiano. Nas escolas tradicionais onde estudei, o método de ensino priorizava o ensino formal distante de brincadeiras. Os pais no lufa-lufa da vida não tinham tempo para elas. Ter uma biblioteca em casa compensava a ausência de uma na escola. Mesmo sem saber ler, ser criada em meio a livros ensina. A criança aprende antes de ler.

Usando o dom da imaginação que recebemos como Sapiens, criamos mundos mágicos. Se não ouvi histórias, a revolução da TV nos dava desenhos e programas como O Sítio do Picapau Amarelo,clássico da literatura infantil brasileira de Monteiro Lobato. Se não ouvia histórias e contos de fada, pude recebia das telas farto material que depois, com os livros que aprendi a ler completaram a magia. Viajava por eles. Ao natural,  estimulado o cérebro por emoções que o corpo sente, ao dormir os sonhos se encarregam de criar sem as amarras da vigília. Quando o hábito de escrever logo ao acordar somos capazes de representá-los primeiro em frases, depois em pinturas, músicas, todas as belas artes.

No longo período em que corri de um lado para outro, todos os dias, com a necessidade de trabalhar, e intensamente trabalhar,  acompanhei através de livros e lendo em kindle nas longas esperas em aeroportos e constantes viagens de avião, o que não tinhatempo de ler em solo, muitos clássicos. Atemporais. Foi assim com Harry Potter, O Mágico de Oz, Guerra nas Estrelas, O Senhor dos Anéis, muitos. Livros levados ao cinema, ao celular, e à TV, democratizam dando acesso rápido para crianças seguirem viajando por mundo imaginários. E dos adultos. A sétima arte.

Meus filhos tiveram uma infância diferente, graças ao pai criativo que brincava com eles seguindo a linhagem de sua mãe, educadora e professora emérita do ensino fundamental, e depois no ensino universitário, Maria Fialho Crusius. Frequentando boas escolas desde a creche e a maternal, receberam muito da literatura infantil como parte de sua formação, onde completavam o que tinham em casa: cuidados, brinquedos, biblioteca, e outras ferramentas de contar histórias como CDs e DVDs, TVs. Seguindo a linhagem de minha mãe, vi com eles peças dos grupos de teatro infantil, sessões de cinema aos matinês de Porto Alegre. Mais a Feira do Livro, claro.

Hoje, do tanto que estudei, do que aprendi com os outros, valorizo melhor a importância da leitura de contos de fadas para a formação da criança integral. Curto. Se não tive em tempo, o tempo é agora. Posso beber da literatura infantil assistindo streamings, indo aos cinemas, acompanhando as análises oferecidas pelos sites, trocando sugestões e opiniões com outros.

Hoje podemos apreciar os melhores frutos do nosso tempo na forma de artes. Do desenho ao cinema, vou descobrindo a delicadeza da cultura japonesa nos filmes do Miyasaki e nas séries de TV. As feiras de anime me lembram a Rua da Liberdade, no bairro japonês por onde muito andei em São Paulo. Ganhei de minha filha no aniversário deste ano o livro no qual mergulho, deliciada com o que o gênio nos premia nas obras do Studio Ghibli que fundou Miyasaki é bem diferente do Nolan com seu filme Odisseia em IMAX, mas igualmente um clássico. Sugiro ler. E ver. Um mundo e muitos mundos à disposição. Bons tempos de arte, esse nosso. Celebremos.



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