MÁQUINAS E MENTES NO MUNDO (DES)HUMANIZADO


 Será que um bot vai gerir seu dinheiro um dia? Empresas de wealth management despencaram hoje na Bolsa americana, entrando para a lista cada vez mais longa de setores atingidos por preocupações com o potencial disruptivo da AI sobre seus negócios. (Luciano Costa, Brazil Journal, fevereiro de 2026)

                                                         

Não há porque temer as máquinas, e sim quem as usa. Máquinas não são movidas por sentimentos ou intenções. Humanos sim. A mente, que as máquinas não possuem, guia de nossss ações, é a criadora e guardiã de todas as imagens do mundo que temos. As imagens são fruto do funcionamento dos sistemas de que é feito o corpo e de todos os fluidos que ele produz. Não está num local específico. Ela existe, e ponto. Uma maravilha do Criador. 

O debate de sempre continua ligando as descobertas da ciência aos problemas que homens que as usam podem causar. Para alguns o desenvolvimento da ciência é fruto da curiosidade humana natural sobre como funciona o mundo, parte da evolução. Para outros é a fonte do medo de que ao buscar conhecimento e produzir os frutos da ciência estejamos brincando de deuses, buscando substituí-los. Provocando sua ira. De todo modo, qualquer ação tem consequências, e a responsabilidade por essas deve ser claramente estabelecida nas sociedade que organizamos, cabendo à Justiça dos homens identificá-la. 

Enquanto avançamos se acelera o fosso entre os que sabem e os que não sabem, e entre os que têm cada vez mais e os que pouco ou nada têm. Sentimentos como rancor e desconfiança se avolumam e afetam as relações humanas, políticas e sociais, reduzindo as escolhas entre apenas dois polos: os extremos. O que já se manisfestava pelos votos em eleições agigantou-se na pandemia de 2020, com seus milhões de mortos, com a reação à obrigatoriedade de tomar vacinas e ao "fique em casa" decretado pelos governos. Instalada a desconfiança na democracia, sobra uma crise que se arrasta.

A polarização política deixa de ser um fenômeno meramente eleitoral ou ideológico para assumir uma dimensão identitária e afetiva. A lógica dos conflitos deixa de se organizar em torno de programas e propostas, e passa a se estruturar em torno de narrativas morais absolutizadas. O adversário político passa a ser inimigo. Esse deslocamento não ocorre no vazio: ele emerge da confluência entre transformações tecnológicas e fissuras sociais, atravessando tanto a vida pública quanto a intimidade das relações pessoais. (João Francisco Lobato, Inteligência Democrática, 24.01.2026)

A inteligência artificial produz máquinas extraordinárias. A ciência manipula vírus e vida em laboratórios, gerando remédios e vacinas. A sociedade divide-se pela ideia de uma nova identidade, a de gênero. Quanto às intenções, assim como a fissão nuclear não nasceu para fazer bombas, a moeda não foi criada para enriquecer alguns e escravizar outros, a vacina não foi feita para empoderar governos, os robôs não foram feitos para nos substituirem e dominarem. Na melhor das intenções, pela fissão nuclear podemos gerar energia farta, barata e limpa, pela moeda os mercados chegam à melhor solução para a produção e a troca, pela vacina se evita milhões de mortos causados pelos vírus que se alimentam do nosso corpo, e os robôs fabricados vem para facilitar e melhorar a qualidade de vida de seus criadores. 

Mas a manipulação dos sentimentos dirigida através das redes vem se somar à ignorância sobre os mecanismos e ao uso político da IA. Ao isolamento imposto na pandemia vem se agregar o isolamento das pessoas, cada vez mais conversando com máquinas e não com gente. Em 2025 foi criada uma comunidade de agents que aparentemente conversam entre si com autonomia, como se fossem gente. Vão substituir o criador? Dario Amodei, o criador do ChatGPT da Google, e outros de mesmo nível na história recente da IA, alimentam o debate falando dos riscos da IA poderosa. O debate os beneficia pois o valor das suas empresas gira nos mercados financeiros que flutuam conforme suas opiniões imediatamente compartilhadas no mundo das comunicações.

Governos se organizam em torno de seus interesses e ideologias. Na China o governo, regime de planejamento central, trocou a moeda física por compras obrigatoriamente feitas por celular, em moeda digital, totalmente rastreável. Cada compra entra no cálculo do “crédito social” que cada cidadão recebe por seu comportamento, registrado a cada passo pelo Grande Irmão. Se “reprovado”, não consegue mais comprar nada nem usar os serviços básicos como moradia, saúde, água, monopólios de estado na China. É excluído, cancelado da sociedade. Precisa de pão e água, não é uma conta cancelável, . As consequências da ação do governo central estão na rua, povoada de excluídos pelo sistema. Parece ficção, distopia, mas é o que se vê no mundo real. 

Em outro continente, o governo suíço prepara a volta da moeda física para humanizar as relações de troca. Em outro continente, o Brasil criou em 2020 o pix, sistema de pagamentos que permite escapar das amaldiçoadas tarifas dos bancos por onde circula nosso dinheiro. Um sucesso. Em algum continente um homem genial ainda não identificado inventou uma nova moeda, tida como “a moeda da liberdade”, o bitcoin. Como o pix, é um sucesso universal que afetou o mundo financeiro, que ainda se sacode para incorporá-lo. O metaverso da imagem que abre esta crônica chegava para mudar o mundo para aposentar tudo o mais. O Facebook mudou o nome para Meta em 2021, seu criador e o mercado afirmando gritando você tem que tê-lo.  Comprá-lo. O departamento da trilionária empresa de seu criador foi logo fechado. Não deu o lucro desejado.

Há um movimento sufocante para comprarmos as maravilhas da IA que estão à venda. Que devemos jogar nas bets "com responsabilidade" que promete ganhos rápidos. Mantendo a consciência bem viva separamos o que dizem que é bom para nós do que é útil para nós. Para isso é bom e salutar cultivar a rotina de olhar menos para as telas e olhar mais para a natureza que, na sua harmonia e perfeição, fruto do mistério da criação, nos ensina de graça a infinita beleza que há para ser vivida. O conhecimento é isso, o bem maior que nenhum Grande Irmão acessa. É seu. O mais é só o mais.

Nota: um pouco da história está em É de arrepiar: Moltbook, a rede em que agentes de AI conversam, se queixam – e criam consciência (Giuliano Guandalini (AI Journal, 31/01/2026). Traz um pouco da história da moda de agents

Em O Exterminador do Futuro, o ano de 2029 marca a batalha entre as máquinas rebeldes comandadas pelo sistema de inteligência artificial Skynet contra a Resistência liderada por John Connor. Esta semana, a ficção acaba de ficar um pouco mais perto da realidade. Entrou no ar na quarta-feira a Moltbook, uma rede social no em que apenas agentes de inteligência artificial – sim, os robôs virtuais – podem fazer posts ou comentários. Humanos são bem-vindos apenas para observar, sem interagir. “O que está acontecendo no Moltbook é a coisa mais incrível e próxima da ficção científica que vi recentemente,” escreveu no X o pesquisador Andrej Karpathy, que já passou pela Tesla e foi um dos fundadores da OpenAI.  Para Elon Musk, estamos “nos estágios iniciais da singularidade” – o momento em que as máquinas ganharão consciência própria e não dependerão dos humanos.

O Moltbook foi criado pelo programador e empreendedor de tecnologia Matt Schlicht, CEO da Octane AI – uma plataforma para marcas de e-commerce criarem experiências de venda personalizadas. A operação do site é quase toda automatizada, sob o comando do bot pessoal de Schlicht, o Clawd Clawderberg. Schlicht fez este bot usando um novo software criado apenas dois meses atrás – e que é a causa fundamental do furor no Vale. Originalmente chamado de Clawd (até que os advogados da Anthropic, dona do LLM Claude, entraram no circuito para proteger a marca), o software mudou brevemente de nome para Moltbot, e agora se chama OpenClaw. O OpenClaw – que tem como símbolo uma lagostinha – foi criado por Peter Steinberger e se tornou um dos maiores projetos open source que o mundo já viu, atingindo mais de 130 mil estrelas (equivalentes a “likes”) no portal de desenvolvedores Github. (Para efeito de comparação, o bitcoin tem 88 mil estrelas apenas.)"


 

Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Bom dia, Yeda! Lendo agora este teu texto, parabenizo a assertividade em comentar as mudanças causadas pelas IAs. Tema que também abordei um pouco em meu último texto; caso queira ler, está disponível em: https://www.ryanmainart.blog/2026/07/rejeite-contemporaneidade-abrace.html . Também gostaria de lhe desejar meus mais sinceros votos, pois no dia em que escrevo é o seu aniversário. Desejo-lhe muita longevidade, saúde, paz e lucidez para que possa, tal qual está no título de seu livro, seguir por um infinito ainda por fazer. Um enorme abraço.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bom dia, Ryan. Obrigada pelos votos de aniversário, é sempre om celebrar a vida. Com prazer li o texto e confirmo: essa foi a grande transformação civilizatória, e há muita incerteza quanto ao uso que está sendo feito e se fará da IA. Sigamos atentos!

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog