A COPA NÃO É NOSSA

Julho de 2026

 

Acordo nesta segunda feira cinza, fria e chuvosa, depois da eliminação do Brasil na Copa do Mundo organizada pela FIFA. Volta a ganhar espaço nos noticiários os escândalos que a cada dia vão sendo revelados sobre desmandos dos que deveriam cuidar da justiça dos homens. Os limites da decência foram há muito rompidos nesta crise danada. E a taça não será nossa. Sem surpresas. Desde o 7 a 1 da copa de 2014 realizada no Brasil, em partida que nos encheu de vergonha e tristeza, nada mudou. Não jogamos mais o futebol do país do futebol. Recebemos um prêmio de consolação do Paraguai, que nos vingou nesta copa despachando cedo a Alemanha para casa.

Inevitável é associar os escândalos de corrupção dos dias atuais às derrotas que vêm sofrendo nossos geniais jogadores quando usam a camisa da seleção. A história da FIFA, comandada pelo dirigente brasileiro João Havelange, revela muito de como foi escrita a formação da maior entidade privada do mundo, que gira bilhões em cifrões e em espectadores fanáticos. Soma-se uma história de corrupção hoje ao vício em apostas por rede digital com as bets. Em 1970 ganhamos o tri, e com ele a taça Jules Rimet ficou definitivamente em nossas mãoes. Feita com a imagem da deusa grega da vitória, Nice, toda em ouro puro, foi roubada de dentro da CBF e consta que foi derretida. Da canção “a taça do mundo é nossa” de 1958 resta a alegria dos bons tempos do futebol-arte. Torcer para a Bélgica ganhar dos anfitriões Estados Unidos amanhã, depois da vergonha de Trump trer pedido ao presidente da FIFA para anular punição de jogador americono, e sendo por ele atendido, é parte da paixão pelo futebol. Que vergonha mundial esse roubo.

Disputada por nações, países dos cinco continentes vivem a copa do maior esporte do mundo, jogado onde exista uma bola, mesmo que de pano e por pés descalços. Nações me lembram geografia.  Não somos mais o país do futebol. Todos são. As grandes transformações surgem em ambientes especiais, em geografias próprias. Antes de Cristo, em Atenas os gregos desenvolveram a civilização da qual a cultura ocidental bebe sabedoria até hoje. Os gregos perguntavam-se sobre a vida, essa fagulha da criação, sobre como formar boas pessoas e viver na cidade, em comunidade. Buscavam as respostas para o que é Justiça, Ética, Política, Tempo, Cidade, Democracia, o viver bem. Para eles a decadência de uma civilização vem pela corrupção do pilar fundamental que sustenta as sociedades: a Justiça, base da Política como valor fundacional.

Lembram-nos dos gregos Marcelo Gleiser quando coloca em livro debates que dirigiu entre cientistas e filósofos, e Eugenio Bucci em coluna do Estadão recente, “Quando uma nação se perde da justiça”, em parte transcrito aqui:

Os gregos antigos acreditavam que o sentimento de justiça morava na alma: seria uma sabedoria natural, espontânea, capaz de distinguir quase que por reflexo entre o arbitrário e o parcimonioso, entre o bem comum e a vaidade chula. Hoje, ao ler Aristóteles e Platão, somos convidados a aprender que, se a política não se destinar a tornar mais justa a sociedade, terá perdido sua razão de ser.             

Eu, política, com tempo e prazer me dobro à necessidade buscar na filosofia respostas para minhas interrogações. Mas não sou só eu, são físicos renomados, cientistas e pensadores que se perguntam se é possível a democracia dos gregos. A IA está mudando o modo de viver no mundo. Uma revolução. Assim como foi Atenas para a filosofia, é a Costa Oeste dos Estados Unidos, no Vale do Silício, para o desenvolvimento da tecnologia que mudou o mundo. Pergunte a um economista como eu o que a Califórnia tem a mais que a Filadélfia, onde se concentram as mais antigas e renomadas universidades do mundo, e ele pode responder com um modelo em um power point fácil de entender. Pergunte o mesmo a um filósofo, que ainda não sou, e ele proporá um diálogo para que você mesmo chegue à resposta. Pergunte a um engenheiro e... bem, esse é o ponto.

Em Cupertino, numa visita a meu filho e família, ouvi à mesa do café da manhã conversa entre um CEO de uma emergente big tech, e um doutor em filosofia de renomada universidade da Costa Leste, hóspede do mesmo hotel. O filósofo perguntou ao CEO por que tinha sido selecionado em duríssima concorrência realizada pela empresa. A resposta: por ser o melhor da escola de filosofia que ajuda a desenvolver programas de inteligência artificial. A filosofia como ferramenta ajuda a responder perguntas por dois caminhos, duas escolas de pensamento, como aprendemos com os filósofos gregos, o Iluminismo, o Renascimento: pelo racionalismo das ciências, ou pelas lições das humanidades. Complementam-se ou se contrapõem? Vou reler Marcelo Gleiser. A semana promete, neste julho muito frio e chuvoso do Sul, na secura do Centro Oeste e nos temporais do litoral do nordeste. Gigante geografia a nossa. Pode ser que em alguma cidade desse imenso e diverso país estejam plantadas sementes tão boas quando foram as de Atenas ou Florença. Sonhar não custa.

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