HANNAS
Não há palavras bíblicas para as ações das mães, embora elas sejam provavelmente mais importantes que as dos pais. Antigos padrões são repassados de mães para filhas que têm filhas, que por sua vez... Talvez isso explique o motivo de mulheres acharem tão difícil apoiarem-se a si mesmas e utilizarem os direitos que uma sociedade igualitária tem a oferecer. (Marianne Fredriksson)
Meus pais escolheram nomes históricos para os meninos,
Lupércio e Percival, e para as meninas, assim como para os meninos, tiradas de obras famosas, de livros clássicos: Marília – de
Dirceu, Yara – rainha das águas, Thaïs – ópera de Massenet baseada em história da
Grécia Antiga. Perguntei para minha mãe
de onde tinha tirado Yeda, e ela disse apenas “ouvi e gostei”. Devia ter ouvido
mesmo, nome presente no Rio Grande do Sul, e que ficou famoso com a escolha da gaúcha Ieda Maria Vargas, com
a minha idade, como Miss Universo. O Y veio de Sylvia, o nome da minha mãe. As
irmãs sempre foram muito amigas e solidárias. Devemos isso ao modo pelo qual
minha mãe e meu pai nos criaram, em condições de igualdade entre todos os
filhos, e autônomas. Uma graça concedida.
O nome Hannah se tornou
mais especial para mim ainda. Hanna e suas filhas é o título do livro
que recebi quando entrei para a política, e que me foi dado por uma belíssima jovem que
disse sobre o por que de me presentear com o livro. Era uma mulher buscando ajudar uma mulher que ingressava na política, território eminentemente masculino. Eu tinha sido eleita pelo Partido da Social Democracia
Brasileira. A social-democracia nasceu em países da Europa defendendo uma
política social baseada na igualdade, igualdade de conceito distinto da do socialismo defendido
na Rússia comunista. Como aqui, lá nasceu como um partido de centro.
O livro físico está há muito
esgotado. Tem em PDF na internet. Tenho dois volumes que empresto para pessoas quando me contam suas histórias, ou perguntam se
mulher vota em mulher, se mulher ajuda mulher na interminável luta para a conquista da igualdade de oportunidades e de direitos – como as sufragistas o fizeram, embora pensando diferente, para a conquista do
voto. No seu prefácio a autora constata que a igualdade defendida na política não
conseguiu ter o resultado esperado na Suécia no século XX. No romance de Marianne quem
narra é uma profissional bem-sucedida, mas com histórico de graves desajustes,
ao nível da violência, entre as mulheres de sua família. Sai à busca de
respostas, descobrindo o que sua avó e bisavó tinham passado e, não conseguindo
superar, a elas restava reproduzir a violência sofrida.
Lembro do livro porque continua o crescimento ao nível de epidemia de feminicídios no Brasil, e a morte sequencial de meninas cometida pelas próprias mães, diretamente ou por omissão. Sobre a banalidade da violência fala Hannah Arendt, sobre a proposta de políticas fala Maria da Penha, e sobre o noticiário cotidiano repetindo casos de morte como essas devemos falar todos nós, homens e mulheres que buscam entender para contê-las no micro, no individual, e no macro, no coletivo.
Nesta época em que os conflitos se acirram no choque entre diferentes culturas trazido pelas levas migratórias crescentes na Europa, expandindo-se até terras americanas, e as guerras se renovam por motivos de extremismo religioso, fortalecendo os extremos, vale muito ler os livros.

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