EVIDÊNCIAS DE NOVOS VELHOS TEMPOS

Uma amiga próxima me pergunta quando escrevi o Fios Tecendo Vida para esta Feira do Livro de 2026 de Porto Alegre. Contei que fui escrevendo, um diário de todas as manhãs ao acordar, desde a pandemia de 2020, tempos do “fique em casa”. Não escrevi. Fui escrevendo, pelo fio condutor daquela experiência pela qual minha geração ainda não havia passado. Havia ouvido falar da peste do começo do século XX, meus pais falavam sobre isso. Mas o século já havia mudado e cem anos depois vem de novo na forma de mulhões de mortos em todo o mundo. E o homem, com toda a sua ciência, não conseguia dominá-lo.

Como lidar com em vírus que dizima milhões por todo o mundo? A pandemia do vírus da COVID 19 é produto de um mundo totalmente conectado. Não é algo novo, pelo contrário. É o eterno jogo entre vida e morte marcando a passagem do Homem na Terra, e porque ele anda para fazer comércio, criar impérios, conquistar territórios, fugir dos perigos. O vírus é de linhagem conhecida: covid. Dotado de capacidade de adaptação ele muta, e para contê-lo uma nova vacina deve ser fabricada.


A pandemia foi uma ruptura. Cassada na mobilidade voltei-me para dentro. Na minha vida de operária até então havia adiado buscar saber do corpo e da mente, da vida em outras civilizações e épocas, e agora tinha todo o tempo do mundo para ler. Vivi economia e política, mas faltava muito mais. Muitos outros, como eu, usaram o tempo da imobilidade para escrever, rever, refletir, compartilhar com a mediação da máquina digital e do mundo da internet suas reflexões.

A produção de livros explodiu. Li sobre mistérios e mitos, jornadas de heróis, sobre o mais complexo sistema jamais criado - o corpo humano, sobre a IA e aonde ela pode chegar, sobre o que é a fagulha da vida, sobre física, química, biologia, filosofia. Civilizações nos legaram os clássicos. Recorto das prateleiras do escritório alguns lidos. 

Da década anterior, a dos anos 2010, eu trazia vivas as manifestações diferentes destas que acompanhei pelo mundo. Foram as Primaveras Árabes das redes sociais conclamando quem quisesse ir às praças para pedir mudança, pedir liberdade. Trouxeram mudanças, de curta duração mas mudanças. Até a pandemia.

Mas algo criado pelo mesmo homem andou junto nessa experiência da covid-19. Deu-se o nome de vírus a uma novidade que vem para assombrar com o medo de que, além do estrago que um vírus - um ser não-vivo que se alimenta da vida na qual penetra até matar ambos, outro vírus artificialmente criado possa escapar do controle de quem o criou e decidir colocar fim à humanidade inteira. Teriam as máquinas criado consciência e adquirido capacidade para decidir sem perguntar a seus criadores?

Vírus são seres microscópicos constituídos de DNA ou RNA e protegidos por uma capa formada de proteínas, parasitas intracelulares que se replicam quando entram em uma célula viva para utilizar todos os seus recursos. Até matar juntos, vida e parasita.

Vírus de computador é um tipo de software malicioso (malware) que se anexa a um arquivo ou programa, se autorreplica e busca se espalhar por mais dispositivos. É definido pela forma como se espalha, sendo capaz de se autorreplicar mesmo sem a interação de quem usa o dispositivo, podendo passar de um dispositivo para outro. Age como os vírus biológicos, que passam de uma pessoa para outra por contato com o ambiente. Daí o nome.

Voltou em 2020 a velha figura da máscara dos tempos de peste. A própria ciência teria produzido o 19 com seus laboratórios? No mundo das máquinas "inteligentes" onde ficam a natureza e o humano que escrevem a maravilhosa história da evolução na Terra? Pode a manipulação da vida pela ciência usando uma nova forma de inteligência – a artificial, levar à extinção antecipada?

Seis anos se passaram. Em Paris emergem manifestações violentas, destroem a prefeitura de Limoges. O gatilho é o preço das habitações, a guerra se replicando outra vez, e o conflito gerado pelo choque entre culturas habitando no mesmo espaço. Vão se espalhando. Foi assim em 1968, em outros séculos e décadas, e Paris é o que é, cidade aberta, geografia e história, passagem entre culturas, velho continente dentre os velhos continentes. São o Norte, tem raízes.

Destruindo o que artes e civilizações vêm construindo há milênios, parecem as hordas não ter  consciência de que são causadores não apenas da morte de outros, mas de sua própria morte. Vírus não têm consciência das consequências de seus atos, mas os que queimam bibliotecas e símbolos, tentando impor suas crenças e costumes em nome de uma recompensa eterna nos céus, mostram também ainda não ter.

O assunto está batendo à nossa porta e entrando sem pedir. Os vírus de sempre voltando. Detém uma competência própria – uma inteligência - que só se manifesta quando alcançam terreno vivo apropriado. Que terreno apropriado é esse que habita Paris e se espalha por cidades da Europa? Paris é passagem, caminho para vírus dos antigos, desde a peste pela Rota da Seda, e em tantos outros casos registrados na História. Mais uma vez, de seda ou cabos óticos, esses são os fios que seguem causando estragos mas também tecendo vida, essa que nos é dada como o grande mistério - pois que é fagulha que o Homem não possui, e a maior maravilha do universo. Celebremos.

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