ÉRAMOS TRÊS, ERA 1960.
Emma Luiza, Sandra e eu éramos
as três meninas dentre os 48 da turma do Científico do Liceu Pasteur, em São
Paulo. Meninas que escolhiam ciências éramos poucas para tentar faculdade na
área. Iam mais para o Clássico, ou para Pedagogia para serem professoras,
profissão que não exigia faculdade e abrigava a maioria das mulheres para a
vida profissional, e educadas para o casamento.
No ginásio as turmas ainda eram
separadas entre os meninos e as meninas, e no Segundo Grau podiam ser mistas. As
coisas mudaram desde então, com o segundo grau sem divisão por área de
conhecimento, e as meninas escolhendo o que querem ser na vida sem as limitações
cultural e legal entre os sexos de então. E, sim, professores são mais
valorizados.
Buscando fotos para ilustrar o
livro que escrevia, Fios Tecendo Vida, dei com registros daquele tempo.
Convivíamos com os veteranos do Científico da Célia, do Bidito, da Carmem, do
Paulinho. As fotos expressam alegria, ainda com os cadernos debaixo do braço,
estojinho para borrachas, lápis, apontador e canetas tinteiro inpirando a
música de Erasmo Carlos e a Jovem Guarda “eu queria ser o seu caderninho”. Naqueles
tempos ingênuos de pós-guerra, respirava-se liberdade.
Sandra, Emma e eu escolhemos o
queríamos ser. Das duas soube poucas vezes desde então, já que a realidade da
crise do Jânio de 1061 havia nos separado. Para trabalhar terminei o Científico
em curso noturno de escola pública passando por decreto. Todas as matérias do
terceiro ano, incluindo filosofia, ficaram para trás. Era urgente sobreviver à
crise trabalhando. Nunca mais parei.
Mas quero falar da Emma. O
colégio era o Liceu Pasteur, em bairro bom. Para Emma seguir nos estudos de
piano, para o qual tinha dom, e cursasse o melhor dos colégios, sua mãe
produzia para vender embutidos que trazia de sua cultura. Fazia em casa com um moedor
manual, o que hoje seria considerado produto de alta gastronomia. Nos ensinava
com orgulho daquela arte.
A mãe de Emma nos esperava no
caminho de volta do colégio na janela da casa geminada com portas e janelas
dando na calçada. Casa simples, sobrado, e na pequena sala se via, portentoso, havia
um maravilhoso piano. Respirava-se qualidade em cada canto do sobrado. Hoje na
busca de notícias sobre elas na internet confirmo que ali naquela casa
habitavam outros duendes e seres de extremada leveza, qualidade, simplicidade, naturais
da alma que as duas mostravam.
O sorriso de Emma era
contagiante. Selecionei a foto das três sorrindo, no pátio do colégio, e
busquei mais. Hoje, com minhas memórias saltando da imagem das três de uniforme
do Pasteur, veio o nome completo: Emma Luiza Peixe. Ah, memórias... elas nos
saltam à mente quando bem entendem. Essa de Emma e Sandra vieram vívidas, acompanhadas
por um sentimento de alegria. Levantei-me para escrever, mergulhada nesse sentimento
especialíssimo que as memórias são capazes de revelar levantando o imaginário,
dom do humano. Achei. Emma Luiza Peixe de Souza Lima.
Com a crise nos separamos, cada
uma seguindo pelas veredas de suas próprias vidas. A minha vida de operária
paulistana começou aos 17 anos: trabalho diurno e estudo noturno, ônibus lotados,
escolha de profissão – economia. Duas noites e nos finais de semana reservava para,
até estourar os meniscos, jogar vôlei como sócia-atleta no Clube Paulistano. Se
não segui na vida de esportista, Emma seguiu na de artista, logo aos 17 anos
estudando em conservatório.
No Google achei muito. Vi que
ela nos deixou em 2014, aos 70 anos. Embora nunca mais tivéssemos convivido,
ela com seus recitais mundo afora, cuidando dos seus cachorros de raça, fico
feliz porque deixou o legado que a sensibilidade da mãe ao reconhecer a apostar
no dom da filha a levou para o mundo. Pianista de orgulhar o país, discípula,
amiga, do sogro Maestro Souza Lima, adicionou ao seu nome o dele, a da arte
vivenciou. Criou o Instituto Souza Lima para registro e divulgação da obra.
Compartilho este momento
especial depositando aqui algumas fotos, memórias pessoais que tomam de encanto
nossa vida, e algumas citações como em https://epartitura.blogspot.com/2007/09/joo-de-souza-lima.html.e Revista Brasil-Europa - Correspondência
Euro-Brasileira 134/32 (2011:6) Prof. Dr. A.A.Bispo, Dr. H.
Hülskath (editores) © 1989 by ISMPS e.V. ©
Internet-edição 1998 e anos seguintes © 2010 by ISMPS e.V. Todos os direitos
reservados ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501
PS: Peço
licença para colocar postar as fotos reservadas em direito, por mim respeitado,
para reprodução. O mundo agora é outro, o que vai para a internet é público, e,
com os melhores propósitos, divulgo e compartilho. Emma merece.

Todos os direitos relativos a texto e imagens
reservados. Indicação bibliográfica para citações e referências: Souza Lima, Emma Luiza de.
Experiências e reflexões. Revista Brasil-Europa/Correspondência
Euro-Brasileira 134/32.

Então, Yeda, mais uma vez, nos encanta com um relato delicado e emocionante, que entrelaça memórias da juventude, as mudanças no papel da mulher e os caminhos que a vida nos impõe. Entre as lembranças do Liceu Pasteur, minha dileta amiga resgata a amizade com Emma e Sandra, em uma época em que poucas meninas ousavam escolher as ciências e traçar seus próprios destinos.
ResponderExcluirComovente também é a história da mãe de Emma, que, com simplicidade, talento e sacrifício, fez de tudo para que a filha desenvolvesse seu dom musical. Emma seguiu seu caminho na arte, tornando-se uma pianista reconhecida e deixando um belo legado. Já Yeda nos revela como enfrentou as dificuldades da crise de 1961, conciliando trabalho e estudo para sobreviver. Histórias diferentes, unidas pela força das escolhas, dos afetos e das oportunidades. E fica a beleza desse reencontro com o passado, que nos mostra como certas pessoas continuam vivas em nós, guardadas em sorrisos, imagens e lembranças que o tempo jamais apaga.
E, para celebrar mais um encontro com seus leitores, Yeda lança sua obra autoral, Fios Tecendo Vida, publicada pela Farol 3 Editores, no dia 5 de novembro, às 19h, na Praça de Autógrafos da Feira do Livro de Porto Alegre (RS).
E te conto, querida, que sou abençoda pela oportunidade de estar registrando neste diário-blog momentos de um mesmo tempo que tantas de nós atravessamos, cada um nas suas veredas da vida, neste entre-séculos. Estou, com esse diário, preparando o livro 2027 "chão de estrelas". Em homenagem à linda música.
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