LÓGICA E INTUIÇÃO: O QUE A IA NÃO PODE APRENDER
19 de maio de 2026
Coloque pecinhas de lego numa caixa e deixe a criança brincar à vontade. Ela vai gerar formas e figuras de modo livre, usando apenas a intuição para criá-las. Experimentando. Errando e acertando. Jovens de hoje, conhecidos como a geração dos millenials, operam controles remotos desde que usavam fraldas, memorizando o caminho para chegar ao programa desejado. Experimentando o controle. Estudando enquanto crescemos linguagens, matemática e lógica, fomos evoluindo e criando as máquinas complicadas que as crianças operam intuitivamente. Criamos a liguagem que faz as máquinas entendem para funcionarem (learning machines), dando-lhes uma inteligência bem menor do que a nossa, que criamos, mas muito mais rápida ja´que usam como base de dados tudo o que já criamos. Tudo. É uma inteligência, mas uma inteligência artificial. Não faz muito tempo isso.
Alan Turing, pioneiro da IA, quebrou o código Enigma dos nazistas, feito decisivo para a vitória dos aliados na II Grande Guerra. Terminou em 1948 o algoritmo Turochamp, junção dos nomes Turing e Champenown, para uma máquiensinada para jogar xadrez. Escreveu em 1950 artigo seminal "Computing Machinery and Intelligence", iniciado com a pergunta Máquinas podem pensar? onde propunha um jogo de perguntas e respostas entre duas pessoas e uma máquina. A máquina sairia vencedora se conseguisse enganar um dos jogadores fazendo-o acreditar que ela era um ser humano. Nascia ali a ideia de Inteligência Artificial como jogo da imitação da inteligência humana (bom ler Roberta Duarte na Folha de S.Paulo, 07.04.2021).
A diferença fundamental entre máquinas e mentes é que mentes decidem usando intuição e emoções para além da lógica, diferença não vencida pelas “máquinas que aprendem” pois essas são apenas lógicas. Ou é zero ou é um no caminho da máquina. No debate sobre a IA pergunta-se se algum dia elas poderão vencer os humanos não apenas em jogos como xadrês, o que já fazem, mas tomando decisões de modo autônomo, sem serem comandados por quem as criou, quem escreveu o caminho que seguem de zero-um.
Há os pessimistas que dizem que uma delas pode aprender usando uma massa gigantesce de dados de decisões tomada por humanos e suas emoções. Numa dessas pode, se lhes for permitido decidir se aperta ou não o botão vermelho que pode dar início a uma guerra que use armas nucleares e assim extinguir a vida na Terra. Há os otimistas que dizem que quem criou e sabe como a máquina funciona (como Hal, o robô de 2001: Odisseia no Espaço, de Kubrick e Clark, de 1968) sempre poderá desligá-la antes. Livros, séries como Pessoa de Interesse (2014) e filmes mais recentes tratam esse debate com os novos elementos de IA..
Figura 1: Justiça Figura 2: Diálogos
No Vale do Silício, na Costa Leste dos EUA, deu-se o salto de desenvolvimento da tecnologia da informação que mudou o mundo. Naquele tempo na Costa Leste concentrava-se a maior parte das melhores e mais tradicionais universidades. Pergunta-se o que levou o Vale do Silício a ser o local onde se deu esse salto. Das garagens, as startups pioneiras, a proximidade com as universidades, e o ambiente de liberdade emanado da Califórnia da abertura aos ensinamentos do Oriente e dos California Dreams, veio o chamamento ao mercado financeiro para investir. Hoje, as maiores empresas que nele operam são as big techs nascidas lá.
Um explicação me foi trazida ao ouvir uma conversa entre dois jovens no hotel em que estávamos hospedados em Cupertino, ao final dos anos 1990, para visitar meu filho que estudava em Stanford. À mesa do café da manhã o CEO de uma emergente big tech e um doutor em filosofia de renomada universidade da Costa Leste, hóspede do mesmo hotel, conversavam. O filósofo perguntou ao CEO porque tinha sido selecionado em duríssima concorrência para trabalhar naquela empresa de tecnologia. A resposta: por ser o melhor da sua escola. A empresa queria desenvolver um produto novo: um programa de inteligência artificial. No método dos filósofos para entender as coisas por perguntas e respostas, por diálogo, estava a chave para a tomada de decisões para a vida. O CEO escolheu o melhor em filosofia por razões práticas. Precisava somar o conhecimentos das Humanidades ao racionalismo das engenharias para que, complementando-se, conduzissem os engenheiros a fazer as perguntas certas e obter as respostas certas para a decidir. Assim foi com o algoritmo Deep Blue da IBM que, imitando a inteligência humana, como propôs Alan Turing, ganhou uma partida de xadrez do grande campão mundial Kasparov em 1997.
As origens do Deep Blue remontam a 1985, quando o doutorando Feng Hsiung Hsu da Universidade Carnegie Mellon, dda Costa Leste, em Pittsburg, começou a desenvolver um computador programado para jogar xadrez chamado ChipTest (Teste de Chip). O computador tornou-se mais tarde conhecido como Deep Thought (Pensamento Profundo), nome inspirado na máquina do romance de ficção científica The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy (O Guia do Mochileiro das Galáxias) de autoria de Douglas Adams. (Max Altman, Opera Munid, 17.02.2020)
Assim como foi no Vale do Silício e não em Pittsburg, foi em Atenas e não em outro lugar que os gregos desenvolveram a civilização da qual bebemos sabedoria e práticas até hoje. Na cidade e na praça. Os gregos perguntavam-se sobre a vida, essa fagulha da criação. Como até hoje o fazemos. Criaram academias para formar pessoas, exercitaram-se como conselheiros de governantes, tomavam decisões em praças públicas somando os votos de pessoas livres. Como até hoje o fazemos. Ensinaram o que é Política, Beleza, Justiça, Verdade, Felicidade, Ética, como viver, como vencer, como deve ser a cidade. Definiram o que é ser um cidadão, e que qualidades faz de um homem um sábio ou um general. Filósofos gregos nos deram ferramentas para desenvolvermos os maiores avanços desde que os humanos se enxergaram diferentes dos outros seres vivos. Pensando. Dialogando.
O conceito de Justiça é o pilar de fundação da Política, como escreveu Platão em sua A República. Faz tempo. Quando se corrompe um pilar fundamental como a Justiça começa a decadência da sociedade formada a partir dela. Lembra-nos disso hoje Eugenio Bucci em seu artigo Quando uma nação se perde da justiça (Estadão)), citando filósofos gregos (Figura 1. Publicações recentes dão continuidade ao eterno perguntar-e-responder que busca saber para decidir. Tratam de inteligência. O físico Marcelo Gleiser conduziu debates contrapondo cientistas e filósofos (Mentes Brilhantes não Pensam Igual, Editora Record, 2026). O economista S. Max Bennett, criador de sucesso de várias startups de IA, quando decidiu escrever o livro que queria ler e que ainda não existia, Uma Breve História da Inteligência Humana (AltaBook, 2024).Vale a leitura dos três.
Colhemos atualmente avanços conquistados com auxílio da IA pelas ciências da vida, como neurociência e biologia, o que tem permitido fazer diagnósticos, identificar e tratar doenças, levando ao aumento a longevidade no mundo. Apesar de todo esse avanço ainda não se sabe como nasce a fagulha da vida que comanda o corpo, ou como funciona a inteligência que permite criar o novo nas máquinas. Ainda não se conseguiu nem acabar com a fome no mundo, nem civilizar governantes que continuam mantendo sociedades subjugadas pela violência e pelo terror.
Na atual Era dos Extremos o que mais tem faltado é isso que o CEO foi buscar com o filósofo: sabedoria para buscar respostas que os engenheiros sozinhos não tinham para fabricar máquinas mais inteligentes. Filósofos tratam disso coma prática do diálogo e da reflexão. Na falta deles poderosos de plantão, impotentes por si só, quando ameaçados no seu desejo de poder eterno usam dos instrumentos de força que têm para tentar impedir a liberdade de pensar e opinar. Continuarão a causar muitos males. Mas não passarão.
Perfeito. Máquinas IAs nao tem consciencia ,improvisação e alma por isso sao artificiais e não naturais. Artificialidade é apenas complemento
ResponderExcluirE segue sendo o grande debate no mundo: a IA. Assim como o mundo mudou em cada mudança cíclica trazendo transformações inclusive materiais, assim é agora. Tudo vem mudando, desde o mundo do trabalho até o cérebro em desenvolvimento das crianças e jovens. E linguagens novas aproximam e afastam grupos, os geracionais. O exercício cotidiano é vital para sustentar o diálogo entre grupos. Trabalho para uma vida!
ExcluirNovamente, parabenizo-a pela análise. A questão das IAs é um dilema crucial a ser analisado do ponto de vista filosófico e ético, e não meramente lógico ou científico, como o seu texto explana cristalinamente. É crucial que o desenvolvimento das máquinas seja, como condição sine qua non, acompanhado de barreiras éticas e estruturais no compasso de seu avanço. Obviamente, não acho válida nem a utopia kitsch de um possível "tecno-socialismo" que muitos pregam, nem a distopia à Exterminador do Futuro, mas já temos tendências preocupantes visíveis. Uma que recentemente tem me preocupado é a econômica: já estamos vendo uma mudança de paradigma na qual as empresas têm removido seu foco primordial do setor de consumo final para o de infraestrutura da própria IA e setores governamentais que operam em conchavo. No mercado de componentes de computadores, há uma inflação crescente pelo uso gigantesco dos componentes nos próprios data centers, e o consumidor fica em segundo plano. Além disso, se chegarmos a um ponto em que a IA supra a maioria das funções, talvez tenhamos uma crise sem precedentes no modelo atual de um capitalismo financeiro fiduciário, que pode não se manter funcional em um modelo de abundância, diferente do de escassez com que lidamos desde as primeiras noções de economia da História. Devemos seguir com cautela e sempre pautando este tão essencial debate. Abraços!
ResponderExcluirMais uma vez grata pelo comentário, distinto e profundo. Abraço!
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