LÓGICA E INTUIÇÃO: O QUE A IA NÃO PODE APRENDER
19 de maio de 2026
Coloque pecinhas de lego numa caixa e deixe a criança formar o que bem entender. Ela vai gerar formas e figuras de modo livre, usando apenas a intuição. Experimentando. A geração dos millenials é capaz de operar um controle remoto de TV desde que usavam fraldas, memorizando o caminho para chegar no programa desejado, aprendendo por intuição, experimentando. Estudando linguagens, matemática e lógica, aprendemos a criar máquinas que as crianças operam intuitivamente. A diferença fundamental entre máquinas e mentes é que mentes operam usando intuição e são guiadas por emoções, diferença ainda não vencida pelas “máquinas que aprendem” (learning machines). No debate sobre a IA hoje pergunta-se se algum dia poderão vencer os humanos não apenas em jogos como xadrês, o que já fazem, mas tomando decisões de modo autônomo, sem serem comandados por quem as criou. Há os pessimistas e os otimistas nesse debate da Era da Inteligência Artificial.
Figura 1: Justiça Figura 2: Diálogos
Foi na Costa Oeste dos EUA, no Vale do Silício, que se deu o desenvolvimento da tecnologia da informação, da internet, da inteligência artificial, que mudou o mundo, apesar de concentrar-se a maior parte das melhores e mais tradicionais universidades na Costa Leste. A resposta a porque foi na Costa Oeste que nasceu o Vale do Silício e sua gigntesca tecnologia me veio como um insight (iluminação, intuição) ouvindo a conversa de dois jovens no hotel em que estávamos hospedados em Cupertino, nos anos 1990, onde morava meu filho engenheiro. À mesa do café da manhã estavam o CEO de uma emergente big tech, e um doutor em filosofia de renomada universidade da Costa Leste, hóspede do mesmo hotel. O filósofo perguntou ao CEO porque tinha sido selecionado em dura concorrência para trabalhar naquela empresa de tecnologia.
A resposta foi: por ser o melhor da escola de filosofia para ajudar a desenvolver um produto que a empresa queria desenvolver: um programa de inteligência artificial. Sabia, portanto, sobre inteligência humana, como a filosofia ensina. Perguntas filósofos respondem podendo trilhar dois caminhos, duas escolas de pensamento, como aprendemos com os filósofos gregos. Universidades do Leste dos EUA se especializam em uma das duas, e a que o CEO escolheu vinha suas razões práticas. Do Renascimento já havíamos duas escolas, além de toda aquela arte conhecida: o racionalismo das ciências, e a dos estudos das Humanidades. Complementam-se ou se contrapõem?
Assim como foi no Vale do Silício e não em Harvard, foi em Atenas e não em outro lugar que os gregos desenvolveram a civilização da qual bebemos sabedoria e práticas até hoje. Os gregos perguntavam-se sobre a vida, essa fagulha da criação, formavam academias para formar pessoas, experimentavam governar como conselheiros de imperadores, tomavam decisões em praças abertas a partir de votos livres, propunham como viver na cidade, afirmavam o que faz de uma pessoa um imperador. Filósofos gregos nos encaminharam aos maiores avanços desde que os humanos se enxergaram diferentes dos outros seres vivos. Por refletirem. Por dialogarem.
Os gregos nos ensinaram o que é Política, Beleza, Justiça, Ética, como viver, como vencer. Até hoje, seus ensinamentos valem. Em outras culturas também o conceito de Justiça era pilar de fundação. Quando se corrompe um pilar fundamental como a Justiça, que a política deveria ter como valor fundacional, começa a decadência da sociedade. Lembra-nos disso hoje Eugenio Bucci em artigo no Estadão (Figura 1), lembrando filósofos gregos, assim como faz Marcelo Gleiser no seu livro deste ano (Figura 2) confrantando filósofos e cientistas em diálogo aberto. Vale a leitura dos dois.
Tempo é vida. Filósofos, cientistas, escritores, poetas, pintores, músicos, já descreveram com arte e sabedoria suas buscas, seus encontros. O avanço colhido atualmente pelas ciências da vida, como neurociência e biologia, contando com o auxílio das novas tecnologias, tem permitido fazer diagnósticos mais acurados e identificar e tratar doenças como depressão, autismo, Alzheimer, e aumentando a longevidade no mundo. Apesar de todo esse avanço ainda não se sabe como funciona a mente, como nasce a fagulha da vida que comanda o corpo, como funciona a inteligência permite criar o novo. Ainda se reproduzem sociedades violentas e a fome.
Civilizações já desaparecidas realizaram obras que até hoje não descobrimos como os egípcios fizeram as pirâmides. Temos hipóteses, mas não certezas. Sem ter respostas para o que é a inteligência humana, que as máquinas tentam copiar, cientistas das áreas de física e de informática estão se voltando ao estudo da filosofia. Dialogando. Por isso o CEO contratou o filósofo: para buscar respostas que os engenheiros não tinham e que lhes permitissem fabricar máquinas inteligentes.
Na atual Era dos Extremos o que mais tem faltado é isso: sabedoria à qual chegamos pela prática do diálogo, da reflexão, do compartilhamento. Na falta deles, quando se sentem ameaçados os poderosos de plantão usam do poder que têm para tentar impedir o fundamento da humanidade: a liberdade de pensar. Não passarão.
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