1991: RBS, EUNICE JACQUES E EU
03 de
agosto de 2025
No evento
de um temporal três elementos nos chegam alertando: vem aí chuva forte. O relâmpago, repentina luz no ar, o, raio instantâneo
e invasivo, e o ruído do trovão caminham pelo ambiente prenunciam tempestade chegando. Nesta madrugada/manhã no estado esses elementos voltam, como
previram os serviços de previsão meteorológica para nossa
terra castigada pelo ciclo climático dos eventos extremos.
Vem-me um relâmpago de memória. Lembro da convenção da RBS na serra, em 1991. Estava na moda a “reengenharia” das organizações, uma das novidades dos anos 1990. Caminhávamos numa trilha do bosque do hotel da convenção Eunice Jacques e eu. Outros se dividiam entre vários esportes nas quadras montadas fora do bosque. Rara oportunidade de conversar com Eunice, oportunidade que não tínhamos nos dias de trabalho normal.
Fomos dar num local meio isolado, preparado para os que quisessem arriscar um lançamento no
arco-e-flecha. Arrisquei. O instrutor me orientou no passo-a-passo. Segui à
risca suas orientações. Esportista respeita esportista. Lancei, e não enxergamos o alvo muito distante. Olhou-me e perguntou se eu já havia lançado. Não, nunca. E seguimos andando e conversando, Eunice e eu, para o salão de
convenções do hotel. Hora da grande reunião.
Entra no salão o instrutor sacudindo uma folha na mão “com licença, vim mostrar o que aquela moça acertou”, e colou no painel a folha do alvo: tinha um buraco ao centro. Na mosca. “Sorte de principiante”, eu disse. Mas para Eunice não foi, como meses depois mostrou.
A técnica da “reengenharia” estaria mudando algo essencial que havia me levado à RBS, e também à Universidade onde já trabalhava há décadas. O mundo mudava muito com a queda do Muro de Berlim em 1989, e o país também, vivendo a realidade de trovão do governo Collor. Sentia-me desconfortável com a rotina que levava. Hora de mudar.
Em seguida veio o chamado para a política. Quando foi noticiado que eu era a nova Ministra do Planejamento do governo Itamar Franco, o vice-presidente que assumiu em 1992 com o impeachment de Collor, Eunice escreveu crônica na Zero Hora sobre o chamado e minha aceitação para o cargo, ligando o fato novo ao meu lançamento no arco-e-flecha na Convenção de 1991. Desafio, foco, confiança. O país vivia uma crise política, com as denúncias de corrupção do governo Collor, a crise de confiança pelo congelamento da poupança em 1990, e uma violenta crise econômica com a volta da hiperinflação. O Presidente Itamar queria o fim da inflação, e me chamou. Era preciso ousadia para enfrentar como mulher o desafio naquele momento pós-Zélia, a ministra que havia congelado as cadernetas de poupança. Aceitei.
Eunice hoje dá seu nome a praça na Rua Fernando Osório, no bairro Petrópolis. Ligada à cultura, teve vários livros publicados, como Um Duende na Calçada. Ela tinha visto o relâmpago que iluminou o lançamento d arco-e-flecha naquela trilha da serra. Escreveu criativamente sobre isso. Morreu em 1997, quando a digitalização não era ainda uma rotina nem os arquivos se armazenava na nuvem - e porisso hoje não achei a crônica, nem pelo Google nem por IA, para escrever motivada pelo lampejo do despertar. Mas guardo a crônica na memória. Valeu, Eunice.
Se alguém tiver, favor mandar.
Yeda, querida, todo jornalista carrega em si um pouco das histórias que já contou em suas reportagens, análises, comentários, pois é delas que somos feitos. E para uma, entre tantas, vir à memória por meio de mensagem inesperada de alguém com quem compartilhamos um bom momento, leva o tempo de um relâmpago. Momento esse que te fez lembrar de uma colega de profissão diferenciada. Eunice Jacques. Linda homenagem em tempos de “jornalistas” que se apresentam durante o exercício da profissão, e em público, com ênfase excessiva na aparência e no entretenimento, em detrimento da seriedade e rigor que se espera do jornalismo. Parabéns!
ResponderExcluirSaudades, amiga;
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