ERA UMA VEZ A CIDADE DA CHAMINÉ QUE CHAMAVA OS ANJOS

Yeda R. Crusius

Outono de 2026

Era uma vez uma cidade que tinha uma chaminé que falava com fadas, ninfas, duendes, gnomos, deuses, heróis e anjos que moravam numa nuvem. Andavam pelo céu para acompanhar a Terra que protegiam. Desciam sempre que preciso para ajudar as pessoas com sua generosa proteção, e voltavam a subir depois da tarefa cumprida, seguindo na sua eterna missão. Ligavam-se à Terra através dos ciclos da Natureza, da vida que se originava dela e a ela retornava em cada ciclo completo. Eram os guardiões dos segredos primordiais, de tesouros escondidos, e de todo o bem e o mal existente na Terra dos Homens. 

A cidade tinha um porto muito alegre à beira do lago que chamavam de rioTodos os anos, para celebrar as flores que coloriam, perfumavam e encantavam a cidade na primavera, pessoas que vinham de todo canto do mundo faziam uma Feira de um sem-fim de conversas, contando histórias e divertindo as crianças que moravam na Cidade que Acolhe.  Os livros escritos para crianças começavam com era uma vez, e os guardiões da nuvem encantada eram não apenas os autores, mas também os personagens das histórias onde os animais falavam, as plantam cantavam, os peixes voavam, as árvores choravam, e tudo era permitido pois viajavm  pelas asas da Imaginação.


                                                       Em poucos séculos, o “era uma vez” se espalhou em vários países (Foto: Getty Images)

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Figura 1:  Gnomos, duendes, fadas, anjos, ninfas, deuses e heróis das histórias infantis

Era uma vez os elementais que viram entre raios e trovões uma nuvem muito mas muito escura e grande se desfazendo sobre aquela terra que protegiam, provocando uma inundação jamais vista que arrastava casas, pontes, árvores, terra, e tudo o mais que a torrente de água ia encontrando no seu caminho até chegar ao lago da cidade. O lago em horas se transformou num oceano, cobrindo cidades inteiras, expulsando seus habitantes que saíam apenas levando o que carregavam no corpo. A chaminé da cidade pediu socorro. Desceram rápido para acudir o estado e sua cidade-capital, juntando-se a milhares de pessoas que vindas de toda parte do mundo entenderam o chamado. 

Na cidade foram recebidos por quintanares, poemas curtos que diziam: é aqui, são todos esperados, estão todos acolhidos. O poeta, de nome Mário Quintana, também havia sido acolhido muito tempo antes vindo da fronteira daquele estado, de seu Alegrete de origem, desde então escolhendo viver ali para sempre, no seu lindo Centro Histórico. O poeta tinha recebido como reconhecimento e agradecimento por seus muitos poemas diários uma placa dando seu nome ao hotel onde havia morado, o Majestic, como Casa de Cultura Mário Quintana, juntando-se aos outros símbolos daquela cidade cheia de histórias assim imortalizadas, e das quais seus habitantes muito se orgulhavam. Era uma vez um poeta.

Terminada a tarefa, já retornados à sua nuvem os elementais se viram também imortalizados na escultura Heróis Voluntários representando todos os que, como eles, haviam chegado à terra submersa para salvar pessoas e animais, abraçando todos que, pranteando suas perdas, sabiam que, quando as águas baixassem, teriam que voltar aos locais de onde haviam fugido expulsos pelo dilúvio, para dali reconstruirem suas vidas. A escultura de ferro passou a fazer companhia a outros símbolos da cidade, como era a Usina do Gasômetro de onde a chaminé lhes havia pedido socorro, junto ao porto alegre que muito tempo antes recebera o barco de imigrantes portugueses vindos para iniciar nova vida na cidade agora submersa pela imensidão das águas de maio. 

A Estátua do Laçador, símbolo da cidade em eleições livres também estava quase coberto pelas águas mas os recebeu como recebia a todos que chegavam com seu “bem-vindos”. Terminada a tarefa, o Laçador despediu-se deles, como se despedia de todos que saíam da cidade, com seu “boa viagem, voltem sempre”. O Laçador, sabiam eles, era o grande contador de histórias de nome Paixão Côrtes que havia forjado a cultura do gaúcho de pilcha, seu traje de honra, que vestia para continuar desbravando novas terras pelo mundo. Era uma vez um Laçador.

Usina do Gasômetro, vista de cima, em Porto Alegre — Foto: Marcelo Viola/PMPA      Foto de Vista Panorâmica Do Pôr Do Sol No Rio Guaiba Com Usina ...

      

Figura 2: Usina do Gasômetro, Pôr-do-sol no Guaíba, CCMQ, Laçador

Na literatura infantil começa-se uma história com o mágico era uma vez. Conto a minha, de como tudo começou para mim na cidade em que moro, capital do estado que amo, fronteira de meu sofrido país. Salve Quintana. Chegando com meu filho no ventre, li ainda no aeroporto meu primeiro quintanares, que começava com não pedi para nascer nem escolhi meus pais. Entendi a cidade, reconhecendo que a escolha era minha. Escolhi nela morar para sempre. Naquele dia segui contando a meu filho que "é aqui, estamos acolhidos, aqui viveremos". Meu filho, nascido no último dia do ano sendo saudado por uma gigantesca queima de fogos, e a minha filha, nascida um ano depois, foram criados ouvindo as histórias que na Feira a cada ano são contadas. A feira abre e encerra com o chamado de um sino para todos participem dela com seus livros, conversas,  encontros e desencontros, esperanças, encantos e desencantos, da vida como ela é quando vivida nas asas da imaginação com os pés firmes na terra. 

Visitantes continuam chegando de toda parte do mundo à cidade hospitaleira que chama à participação por seus muitos eventos, como são a tradicional Feira do Livro, as maratonas em que milhares  de corredores percorrem a orla do Guaíba passando por dentro do Mercado Público, as noites culturais de todas as tribos, os summits sobre todos os assuntos, os bares com cadeiras nas calçadas, os espetáculos e exposições em seus prédios, cinemas, teatros, museus, esquinas, bancos, praças e parques, oferecendo passeios guiados em roteiros pelo Centro Histórico pleno de arquitetura, histórias, símbolos, que a vida que segue vai criando em novos era uma vez.

O símbolo Heróis Voluntários veio se somar aos demais para celebrar uma qualidade que pertence ao que chamamos de Humanidade: a solidariedade. Soma-se à Liberdade, Igualdade e Humanidade da bandeira do estado. Essa qualidade atemporal, onipresente, guardiã do mundo do cuidado, está presente  em cada ação de gente que cuida de gente, respeitando a história de cada um, celebrando a vida que é feita no enfrentamento dos desafios como eles nos chegam, sempre surpreendendo. A cidade acolhe, compartilha, adota, agradece cada pôr-do-sol que atende ao movimento do universo trazendo luz e calor no renovar de cada dia, em eterna celebração e agradecimento à vida.

O estado dos gaúchos é conhecido como o estado onde nada acontece sem um debate vibrante. Debate-se em grenal permanente através da política do cotidiano. O Rio Grande vive política, que é debate. Segue debatendo sobre quem ganhou ou perdeu a revolução que já longe no tempo durou dez anos deixando seus combatentes em farrapos. O pacto que colocou fim àquela revolução nas Pedras Altas não se discute: com ele nasceu a república rio-grandense, a república farroupilha. O que continua em discussão é quem afinal venceu aquela guerra. Defensores de um lado, usando lenço de uma cor como símbolo, afirmam que o pacto assinado ao final dos dez anos aconteceu porque se escolheu edificar uma república maior e unida, do tamanho que hoje temos, a república brasileira. Cheia de problemas, mas com sucesso. Os do outro lado, usando lenço de outra cor, defendem que o poder central nos sufoca e subtrai e que o pacto, reconhecendo isso, fez daquela uma revolução permanente quando aceitou que sejamos denominados república sul- riograndense, a identidade gaúcha. Pacto assinado se honra, fazendo dos gaúchos, assim como eles são, construtores da República do Brasil, seus fiadores e financiadores, guardiões das suas fronteiras onde elas se definam.

Tendo o passado como memória, nossa gente segue em contínuo caminhar fazendo as escolhas permitidas pela liberdade do insubstituível debate. Desde as origens, quando os índios nativos receberam os jesuítas há 400 anos fundando as Missões e dizendo aos que queriam roubar-lhes "esta terra tem dono", até o presente, a gente da terra continua recebendo os que aqui chegam para que, e somente se, juntos sigam defendendo a liberdade de suas opiniões, valorizando e respeitando em suas vivências e realizações, moldando a cultura que é plantada pelos que buscam, através do trabalho, gerar a riqueza nacional. Que siga, então, o debate.

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