ERA UMA VEZ UMA CIDADE ENCANTADA
outono de 2026
Ah, o tempo. Once upon a time. Era uma vez uma cidade que
se conectava com o universo por uma chaminé. As mensagens chegavam até a
comunidade em que fadas, ninfas, duendes, gnomos, anjos e heróis passeavam pelo
céu de onde acompanhavam a Terra que protegiam. Desciam todos os anos para festejar
na cidade da chaminé na chegada da primavera onde, com outros autores e
personagens, contavam histórias para crianças na praça cheia de barracas entre
flores lilases, brancas e amarelas, junto ao lago que chamavam de Rio Guaíba.
Ligados aos ciclos da
Natureza, da vida que se origina da Terra e a ela retorna em cada ciclo, eeram os guardiões de todo o bem nela existente, de seus segredos primordiais, de seus
tesouros escondidos. Participavam da feira dos contos do era uma vez lidos
para as crianças que ouviam encantadas histórias de pessoas que conversam
com animais que falam, peixes que voam, árvores que choram, legumes que andam, pedras que cantam, em um mundo onde
tudo é permitido e todos aprendem voando nas asas da imaginação.
Era uma vez quando,
chamados pela chaminé, entre raios e trovões uma nuvem escura muito grande desabou sobre o estado chegando à cidade que era sua capital, provocando uma destruição jamais
vista antes. Desceram para acudir pessoas e animais em apuros,
somando-se aos que vinham de todas as partes do mundo para ajudar. Em fúria das águas, as enchentes de maio cobriram as cidades levando tudo à frente, até o Guaíba que tranbordou.
Os elementais foram recebidos com quintanares,
poemas curtos publicados no jornal da cidade, que diziam: é aqui, fiquem.
O poeta de nome Mário Quintana, vindo da fronteira daquele estado, havia escolhido viver desde
então e para sempre na cidade que o acolheu, recebeu como agradecimento por seus versos ter
seu nome dado ao hotel onde havia morado, a Casa de Cultura Mário Quintana - agora coberta pelas águas das enchentes de maio.
Foram também saudados pelo Laçador
com um “bem-vindo” na chegada e com um “boa viagem e volte
sempre, vivente” na despedida. O Laçador, sabiam, era o contador de histórias de nome Paixão
Côrtes, eleito símbolo da cidade e eternizado na Estátua do
Laçador– quase submersa pelas águas de maio - por ter forjado a
cultura do gaúcho vestido com a pilcha que é seu traje de honra por onde ande pelo mundo.
Na primavera daquele ano não
houve a feira. Cumprida sua tarefa, os elementais voltaram à nuvem onde moravam deixando farto
material para novas histórias do era uma vez. Depois acompanharam o novo símbolo, a nova escultura, os Heróis Voluntários, homenagem da cidade colocada perto
da chaminé da Usina do Gasômetro à beira do Guaíba, junto ao porto alegre de chegada
dos imigrantes portugueses que tinham dado início à cidade encantada.
Conto minha história de era
uma vez. Chegando com meu filho no ventre fui recebida no aeroporto com o um quintanares iniciando assim eu não pedi para nascer nem escolhi meus
pais, em versos que diziam da decisão que a cada um cabe de escolher
o solo para plantar suas próprias raízes. Entendi a cidade e disse ao filho por nascer é
aqui, podemos ficar. Ele nasceu na noite do último dia daquele ano, sendo saudado pela cidade com uma imensa queima de fogos junto com a virada de ano. Um ano depois nasceu minha
filha, e desde sempre os dois ouviram encantados os contos da terra escolhida para
virem ao mundo e viverem seus cantos e encantos, como fizeram milhares de pessoas
que aqui chegadas escolheram esta terra para viver.
Visitantes
vindos de toda parte do mundo continuam chegando à cidade hospitaleira para
participar de seus muitos eventos, no Centro Histórico pleno de histórias e símbolos
que a vida que segue vai criando em novos era uma vez. O símbolo Heróis
Voluntários vem somar-se aos demais para celebrar a qualidade que pertence
à Humanidade: solidariedade, presente em cada ação da gente que cuida de gente honrando a história de cada
um celebrando a vida que é feita no enfrentamento dos desafios como eles nos
chegam, sempre surpreendendo. A cidade da chaminé é a que acolhe agradecendo em
cada pôr-do-sol mais uma história para ser contada no era uma vez.
Yeda, querida minha, seu texto é muito inspirador e carregado de sensibilidade. Gostei especialmente da forma como você retrata a cidade como um espaço de acolhimento, onde visitantes de todas as partes do mundo chegam para construir novas histórias. A ideia de que a vida continua criando novos “era uma vez” confere à narrativa um caráter poético, capaz de conectar memória, presente e futuro.
ResponderExcluirTambém me chamou a atenção a maneira como você associa o símbolo “Heróis Voluntários” à solidariedade, elevando-a à condição de um valor essencial da humanidade. A expressão “gente que cuida de gente” sintetiza com força e delicadeza o espírito do texto.
O encerramento, com a imagem da cidade da chaminé agradecendo a cada pôr do sol por mais uma história vivida, é especialmente marcante. Ele transmite um sentimento de gratidão, pertencimento e continuidade que permanece com o leitor mesmo após a leitura. Abraço afetuoso.
Lilian Daher
Desde as grandes enchentes de 2024 olho a cidade de modo diferente. Ela se conectou, na catástrofe, com milhares e milhões de outras pessoas, teve a sua geografia alterada, as pessoas impactadas comportando-se de acordo com o que mudaram. Uma experiência para sempre.
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