ERA UMA VEZ UMA CIDADE ENCANTADA

Yeda R. Crusius

Era uma vez uma cidade que se conectava com o universo por uma chaminé. As mensagens chegavam até a comunidade em que fadas, ninfas, duendes, gnomos e anjos e heróis passeavam pelo céu de onde acompanhavam a Terra que protegiam. Desciam todos os anos para festejar na cidade da chaminé a chegada da primavera onde, com outros autores e personagens, contavam histórias para crianças na praça cheia de barracas entre flores lilases, brancas e amarelas junto ao lago que chamavam de Guaíba.

Eram ligados aos ciclos da Natureza, da vida que se originava da Terra e a ela retornava em cada ciclo, sendo os guardiões de todo o bem nela existente, de seus segredos primordiais e de seus tesouros escondidos. Participavam da feira dos contos do era uma vez lidos para as crianças que ouviam encantadas as histórias de pessoas que conversam com animais que falam, peixes que voam, árvores que choram, em um mundo onde tudo é permitido e todos aprendem voando nas asas da imaginação.

Era uma vez quando, chamados pela chaminé, entre raios e trovões uma nuvem escura muito grande e pesada desabou sobre estado daquela cidade-capital, provocando uma destruição jamais vista antes. Desceram para acudir aquelas pessoas, animais e árvores em apuros, somando-se aos que vinham de todas as partes do mundo para ajudar.

Foram recebidos com quintanares, poemas curtos publicados no jornal da cidade, que diziam: é aqui, fiquem. O poeta de nome Mário Quintana vindo da fronteira havia escolhido viver desde então e para sempre na cidade que o acolheu, recebendo como agradecimento ter seu nome dado ao hotel onde havia morado - agora quase coberto pelas águas.

Foram saudados pelo Laçador com “bem-vindo” e, na despedida quando voltaram à nuvem com “boa viagem e volte sempre, vivente”. O Laçador, sabiam, era o contador de histórias de nome Paixão Côrtes que havia sido imortalizado em símbolo eleito da cidade, a Estátua do Laçador– quase submersa pelas águas de maio - em agradecimento por ter forjado a cultura do gaúcho vestido com a pilcha que é seu traje de honra por onde ande.

Na primavera daquele ano não houve a feira. Cumprida sua tarefa voltaram à nuvem onde moravam deixando farto material para os próximos contos das histórias do era uma vez. Avistaram depois uma nova escultura, Heróis Voluntários, homenagem da cidade perto da chaminé da Usina do Gasômetro na beira do Guaíba, junto ao porto alegre de chegada dos imigrantes portugueses que deram início à cidade encantada.

Conto uma história de era uma vez. Chegando com meu filho no ventre fui recebida no aeroporto com o um dos quintanares iniciado por eu não pedi para nascer nem escolhi meus pais em versos que diziam da decisão que a cada um cabe de escolher o solo para plantar suas próprias raízes. Entendi a cidade. Disse ao filho é aqui, podemos ficar. Ele nasceu no final do último dia daquele ano sendo saudado pela cidade com uma grande queima de fogos. Um ano depois nasceu minha filha. Desde sempre os dois ouviram encantados os contos da terra escolhida para virem ao mundo e viverem entre cantos e encantos, como fizeram milhares de pessoas que aqui chegadas escolheram esta terra para viver.  

Milhares de visitantes vindos de toda parte do mundo continuam chegando à cidade hospitaleira para participar de seus muitos eventos no Centro Histórico pleno de histórias e símbolos que a vida que segue vai criando em novos era uma vez. O símbolo Heróis Voluntários vem somar-se aos demais para celebrar à qualidade que pertence à Humanidade: solidariedade, presente em cada hospital, rua, esquina, praça, em cada iniciativa e ações de gente que cuida de gente honrando a história de cada um e celebrando a vida que é feita no enfrentamento dos desafios como eles nos chegam, sempre surpreendendo. A cidade da chaminé é a que acolhe agradecendo em cada pôr-do-sol mais uma história vivida. Era uma vez.

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