TRIBUTO A HELENA RAYA IBAÑEZ 

30 NOVEMBRO 2025

 Ontem, 29 de novembro, a cidade se vestiu de luzes para a Noite dos Museus, com as calçadas forradas de flores dos flamboyants vermelhos, guapuruvus amarelos, jacarandás lilazes. Que beleza é Porto Alegre!

Fomos à abertura da exposição dos amigos Xico e Ita Stockinger, com obras de 21 artistas celebrando os 90 anos de Zorávia Bettiol. Lembrei a Zorávia nossa amiga comum Helena Ibañez (Figura 1). Encontrei lá pessoas muito queridas com as quais lembrei os encontros promovidos pela Helena que nos aproximavam tanto.

Helena foi advogada pioneira andando por esse Rio Grande na defesa das mulheres. Todos os domingos reunia em sua mesa redonda no Country grupos diversos. Com seu Instituto dos Advogados trouxe grandes figuras aos ciclos de palestra do IARGS sobre Direito, Literatura e Psicanálise. Amava viajar o mundo e mesmo quando não podia contar com a companhia de seu Sylvio dizia “eu me conformo e viajo sem ele”. Modista nata desenhou, escolheu tecido e produziu o blazer com que, junto com Rui, me vestiu governadora.



                                                     
Figura 1: Helena Raya Ibañez

Seus telefonemas chegavam aos aptos do Plaza San Rafael (como negar o número do quarto a ela?) convidando para falar algum ilustre visitante, e o levava ao seu apartamento no Santa Tecla em saraus culturais, como Paulo Autran e tantos outros. Foi assim que a conheci, ligando para casa, eu economista na hiperinflação, convidando-me para indicar a advogados responsáveis qual o índice de preços colocar nas sentenças que envolviam dinheiro.

Muitos os que assim imediatamente se tornavam seus "amigos de infância" vivenciando a efervescência cultural que liderava. Leal, fiel, dedicada, divertida, culta. Os saraus no Santa Tecla lembravam os da revolução cultural de Paris mostrada no filme Midnight in Paris (2011), de Woody Allen.

Logo à saída do Governo, em 2011, me fez sua vizinha no centro de Porto Alegre, no Santa Tecla onde habitavam a alegria, a sororidade, almoços e jantares caprichados, horas de confidências, encontros. Vivemos também em Torres nossa versão Thelma e Louise (filme de 1991, Figura 2) num Ano Novo. Ela se emocionou com o reconhecimento que o CEO do hotel fez declarando que atenderia o que eu pedisse, como ampliar com uma mesa extra na passagem de ano no hotel lotado, em reconhecimento pelo que eu havia feito por Torres, quando governadora.

No dia seguinte caminhamos do centro de Torres até as pedras da Barra do Mampituba. Seus pés de pele alvíssima ficaram em bolha pelo sol. Tivemos que voltar a Porto Alegre para ir à emergência, contando com a ajuda do fiel Seu Siqueira. 

De tudo ríamos juntas, amigas/irmãs que a vida nos permite escolher.

Depois a peste nos alcançou, e ao mundo. O coronavírus de 2020 negou a milhares a despedida dos seus. Ficou impedido o rito de passagem. Ainda assim pude me despedir da Helena, que nos deixou no período de pandemia. Com ela falei por telefone 4 dias antes de sua passagem “estou ótima, ouço música todo tempo e bem alto, e agora que contamos com a vacina venha almoçar que vamos providenciar um almocinho bem gostoso”. Quase deu. 

                                    Homem em pé na areia

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                                       Figura 2: Thelma e Louise (Filme de 1991)

 

 

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