PRIMEIRA INFÂNCIA: A FORMAÇÃO DE UM SER INTEGRAL

Diários de Viagem (3)

26 DE OUTUBRO DE 2025


O cuidado com a 1ª infância escreve o futuro dos povos. 

Com tudo o que já aprendemos há que cuidar no presente as crianças, se possível desde que concebidas, como fez a médica Zilda Arns através da Pastoral da Criança. Cuidei quando, presidente do Instituto Teotônio Vilela em 2003 publiquei a separata A Primeira Infância no Brasil - Coleção Brasil 2010 (Figura 1). Cuidei quando, Deputada Federal em 2017, formei a Frente Parlamentar de Prevenção da Violência. Cuidei quandoGovernadora em 2007, implementei o Programa Estruturante de Prevenção à Violência (PPV). Valeu, pois os indicadores sociais do estado deram um salto para melhor.


                                                            Figura 1: Separata do ITV

Não me lembro muito do que aprendi nos primeiros anos de vida. Estudei em colégio de freiras, enquanto os meninos estudavam em colégio de padres. Pareciam mais inteligentes porque sabiam coisas sobre o mundo que nós, as meninas de mesma idade, não. Erro original, logo corrigido pela experiência da vida: não existe hierarquia entre gêneros. Quando fomos para o Liceu Pasteur, colégio misto onde meninas e meninos aprendiam os mesmos conteúdos, e a diferença sumiu. Lembro até hoje dos conteúdos que aprendi nas aulas de Matemática, Geografia, História, que me encantavam. 

Escolhi depois o Científico, e não o Clássico, divisão daqueles tempos para o Segundo Grau. Éramos 3 meninas e dezenas de meninos (Figura 2), fruto do conluio entre ensino e sociedade que induzia as meninas a escolher profissões “não-científicas”. Tive facilidade para a Física (ver Nota), e dificuldade para a Química e seus misteriosos elementos. Sobre Energia aprendi na prática queimando a mão no fogo ou algum aparelho por uso errado. O tal de "ver para crer" funcionava: energia, calor e luz não se pega na mão. Não têm massa. São ondas. Mas movimentam o mundo. E queimam.

                                                Figura 2: As 3 do Científico (Pasteur, 1960)

Já em 1961, quando Jânio Quadros fugiu 7 meses depois de eleito presidente, o Brasil mergulhou na crise do desemprego sem nenhuma proteção social como salário-desemprego ou caderneta de poupança, criados pelo Governo Militar logo depois. Tendo que trabalhar aos 17 anos, migrei para o ensino público, noturno, e “passamos por decreto” com o fechamento dos colégios pelas badernas de rua durante a crise. Ou seja, zero de conteúdos dados nos últimos anos do 2º grau. 

Em 1962 passei no vestibular para Economia da USP, que não fazia distinção entre homens e mulheres pela vaga. A turma era composta de pouquíssimas mulheres, e como professora apenas uma. Economia era ambiente masculino. Matriculei-me no curso noturno para poder trabalhar de dia. Aí era patente uma outra divisão, a que existia entre os que estudavam no curso diurno, com sua liberdade de horário, e os do curso noturno: o noturno tinha um ano a mais. A foto da minha formatura na USP (1966) mostra: éramos 2 mulheres entre muitos formandos (Figura 3).


                                    Figura 3: Duas na Formatura de Economia (USP, 1966)

Muito tem mudado desde então. Existe a educação já na primeira infância, a fase do desenvolvimento infantil dos 0 aos 6 anos de idade, período quando ocorrem as conexões cerebrais capazes de influenciar no desenvolvimento de habilidades e competências que acompanham o indivíduo por toda a vida. Com um bom ensino já na pré-escola as crianças podem aprender de modo lúdico, intuitivo, sem segredos ou divisão entre gêneros, preparando para o modo lógico. Mas nem tudo se resolve na pré-escola, ainda distante de grande parte da população. 

Ainda hoje há práticas semelhantes ao "passar por decreto" dos tempos de crise. Não se repete de ano memso que o aluno que não aprende é reprovado. São múltiplas as causas da reprovação. Começa com a falta de diagnóstico para problemas do aprendizado logo cedo, segue com o ambiente de onde provêm os alunos, mais as desigualdades sociais e a desatenção na primeira infância. O aluno vai passando, mas com desajustes, frustrações, desinteresse. Muitos abandonam a escola entrando pelos desvãos de uma sociedade extremamente fragmentada das cidades.

Por isso educar desde a primeira infância, com a atenção individual que se requer e se deve buscar na pré-escola, é requisito fundamental para que as pessoas vivam melhor. A vida é uma dádiva maravilhosa. Cuidemos bem dela, da nossa e da dos outro.


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