PORTUGUÊS É UMA LÍNGUA DIFÍCIL. PODE SER UMA VANTAGEM.
PORTUGUÊS É UMA LÍNGUA DIFÍCIL. PODE SER UMA VANTAGEM.
Setembro de 2024
No filme A Chegada uma professora de línguas de universidade americana inicia a aula avisando aos alunos: "Hoje vamos estudar português. Português é uma língua difícil". Os alunos, inquietos olhando o celular, pedem para ela ligar a TV do auditório. O telão mostra um breaking news com imagens ao vivo de naves descendo em vários pontos do país, com o alerta de autoridades de que estava acontecendo algo desconhecido. A professora vai até a janela e vê uma delas. Todos atendem ao alerta e saem.
Logo chegam agentes militares à sua casa buscá-la, pois é reconhecida conhecedora de "línguas difíceis". Precisavam decifrar a linguagem dos alienígenas, comunicar-se som eles. Foram chamados ela e um físico matemático para decifrar. Que mensagem traziam os visitantes? Só com ciência e técnica nada se cria. O que os cientistas descobrem já existe, está na natureza, mas não se sabe como funciona. Vale a dica de filme para conversar sobre relação entre educação (línguas) e tecnologia.
Precisamos de muita energia para a era da comunicação, da internet, da Inteligência Generativa. De fontes de energia o Brasil é farto. Assim como de terras raras usadas nos produtos da era tecnológica. Pois foi assinado nesta semana um protocolo de intenções entre o governo do estado e a Scala, empresa de data centers, para a construção de uma "cidade digital", a Scala AI City, em Eldorado do Sul. A cidade vizinha de Porto Alegre foi praticamente destruída pelas enchentes de maio de 2024, e possui uma grande área livre para o propósito da cidade digital.
Os dados do mundo digital "antigo" anterior ao mundo generativo das máquinas (como o GPT) tem sido mantidos armazanados em fazendas. Agora o volume cresce exponencialmente para viabilizar a era da inteligência generativa. Quase tudo o que move o mundo precisa ser armazenado em um mega-datacenter para as máquinas funcionarem na sua língua, a linguagem de máquina que criamos para fazer as máquinas funcionarem. Não é a mesma com a qual nos comunicamos, com a qual aprendemos.
No dia-a-dia nós humanos falamos na língua-mãe, no Brasil o português. Aprendemos a pensar, e pensamos, em português.Uma língua difícil, como falou a professora do filme. Graças a essa capacidade, somos reconhecidamente inovadores, com grande capacidade de adaptação. Infelizmente, estmaos falando português cada vez pior e, porisso, não pensamos bem. Indicadores de qualidade da educação básica mostram que estamos piorando, ficando cada vez mais atrasados em relação a outros países.O mesmo para a matemática, a base do desenvolvimento da linguagem de máquina, a que nós mesmos criamos. Cresce a proporção de analfabetos funcionais, digitais, etários, aumentando o fosso entre os que aprendem e os que não, entre os que têm e os que não. Quem aprende salta à frente. Que o diga um setor em franca expansão: o do crime organizado. Dessa desigualdade crescente nasce o conflito social.
Precisamos de energia, o alimento dos data centers, e para tudo o mais. Temos que definir prioridades em orçamentos públicos realistas, e esse é o campo da política. Decidir entre energia e educação não é a questão. As duas devem andar junto, a partir da educação básica, a da pré-escola, a da primeira infância. A educação de qualidade e universal é que vai permitir utilizar com autonomia o serviço fornecido pelos data centers no modo de vida cada vez mais digital, assim evitando que não se aprofunde o fosso da desigualdade. Para que não nos tornemos colônia digital, fornecedora do insumo que temos com fartura natural, a energia.
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