Completei já dois ciclos de vida profissional de 30 anos, um como economista e comunicadora, outro dedicada à política partidária. Em 1963 ingressei na Faculdade de Ciências
Econômicas da USP e 30 anos depois decidi pela mudança, assumindo em 1993 o Ministério do Planejamento do Governo Itamar Franco. E 30 anos depois, em 2023, decidi pela desfiliação partidária. Detalho um pouco desses ciclos, referindo-os aos principais eventos de seu tempo.
1. O ciclo da economista: 1963-1992
Em 1961 a renúncia do Presidente Jânio Quadros, recém eleito, surpreendeu o país gerando uma gigantesca crise deixando sem emprego e renda meu pai, assim como milhões de trabalhadores. O país não contava com qualquer proteção trabalhista, como salário-desemprego, nem alternativas de aplicação do dinheiro em caderneta de poupança que permitisse fazer a transição entre uma fonte de renda perdida e outra a conquistar. Com 17 anos precisei sair atrás do meu primeiro emprego, pelo salário mínimo. No colégio público noturno para o qual me transferi nada de aulas, baderna nas ruas. Passei por decreto, e foi uma lacuna no processo de aprendizado escolar, compensado pelo aprendizado das batalhas das ruas em agitação política. Jango Goulart, vice presidente, foi impedido de assumir em lugar de Jânio, e o país em crise teve sua segunda experiência parlamentarista (1961/1963).
Escolhi em 1963 fazer a Faculdade de Economia da USP, que ficava no centro de São Paulo, ao lado da rua Maria Antônia e sua influente Faculdade de Filosofia, onde estudaram Fernando Henrique e outros intelectuais atuantes na política. O governo militar que assumiu em 1964 reorganizou o estado brasileiro. Com o Decreto-Lei 200/65 foram criados o Banco Central, o salário-desemprego, a caderneta de poupança, e muitas das instituições que existem até hoje. Com o Governo Militar o professor da faculdade, Delfim Neto, assumiu como ministro o comando da economia, e a profissão ganhou importância e valor. Formei-me em 1966.
Na rua da faculdade, a Dr. Vila Nova, ficava também o Bar sem Nome, onde todos os tipos de batidinhas embalavam nossas madrugadas de boemia onde nasceram músicas apresentadas nos festivais da época. Em plena Guerra Fria, a efervescência dos anos 1960 se espalhava em todo o mundo, como os movimentos de guerrilha exportada pela Revolução Cubana de Fidel Castro e apoiada pela URSS, mais os movimentos hippie e black power, a guerra do Vietnã, o assassinato de líderes como Kennedy e Martin Luther King, o homem na lua, os festivais de música, e muito mais. Foi o período do ciclo de governos militares no Brasil e na América Latina por um longo período.
Meu primeiro emprego de economista foi, em 1967, na Federação do Comércio de São Paulo, na mesma rua da Faculdade. No ano seguinte troquei o emprego de alto salário pelo pós-graduação com bolsa de estudos na FCE/USP. Precisava e queria estudar mais. Com o assassinato de um estudante em manifestação ali na Maria Antônia o governo editou o Ato Institucional (AI-5), fechando as faculdades e o Congresso Nacional e aprofundando um período carente de democracia. Mais uma crise. Os cursos foram transferidos para a ainda inacabada Cidade Universitária, em Pinheiros, e novamente passamos "por decreto". Foram fechados também o Bar Sem Nome e os festivais.
Em seguida fui fazer o mestrado na Universidade de Vanderbilt em Nashville, Tennessee, onde Crusius e eu nos casamos. Chamados para compor a equipe que criou o pós-graduação em Economia da UFRGS em tempos de Refoma Universitária, viemos para Porto Alegre em 1970, onde plantei raízes, criei família, tive riquíssima vivência pessoal e profissional como professora, comentarista em veículos de comunicação, conferencista.
Após a desordem financeira mundial gerada pela quebra do padrão-ouro pelo presidente Nixon em 1971, os choques do petróleo (1973 e 1979) levaram instabilidade e hiperinflação ao mundo. No Brasil não foi diferente. O Governo Militar em 1984, sob pressão do movimento das Diretas Já, pactuou a transição para a volta das eleições diretas para escolha de um governo civil, dando fim ao período militar . Foram eleitos em eleição indireta Tancredo Neves e José Sarney, o primeiro falecendo antes de assumir, e completando o mandato o segundo, mantendo o compromisso do redesenho do Estado por meio de uma Constituinte, realizada em 1988. Líderes como Mário Covas fundaram o PSDB, ao qual me filiei. Mário Covas foi nosso candidato em 1989 na primeira eleição para presidente da minha geração. Foi eleito Fernando Collor. Eclodiu nova crise, com denúncias de corrupção e a volta da hiperinflação. Hora de “voltar às ruas”. Decidi fazer política encerrando o ciclo de professora e economista profissional.
2. O ciclo da política: 1993-2022
Em 1990 o Plano Collor, logo fracassado, congelou os saldos das cadernetas de poupança, que era o instrumento de defesa dos que ganhavam menos contra as perdas pela inflação. No caldo político das denúncias de corrupção, em 1992 o presidente perdeu o cargo por impeachment. A queda do Muro de Berlim em 1989, símbolo da Guerra Fria iniciada após a II Grande Guerra, na nova ordem mundial que dividiu o mundo entre países capitalistas e socialistas, abriu o caminho para uma época de reconstrução mundial, com a formação da União Europeia e da sua moeda, o Euro, e líderes formados no espírito da Terceira Via. Assumi em 1993 o Ministério do Planejamento e Orçamento do Governo Itamar Franco nos tempos difíceis de hiperinflação. Vários planos econômicos haviam fracassado da década dos 1980, chamada de "a década perdida”. Tardava a hora de encarar um plano eficiente para debelar a inflação. Itamar Franco teve a coragem de entregar essa tarefa a Fernando Henrique Cardoso. Do PSDB. Nasceu o Real.
Em 1994 fui eleita Deputada Federal, reeleita para os dois mandatos seguintes, e em 2006 fui eleita governadora (2007/2010), com um Plano de Governo para transformar a realidade deficitária do Rio Grande do Sul. O compromisso do déficit zero e do uso eficiente dos recursos públicos permitiu ao estado voltar a crescer. O déficit zero foi conquistado em 2 anos, e com inovações como as Secretarias da Irrigação e a da Transparência colhemos no período uma significativa melhoria de todos os indicadores sociais, com altas taxas de crescimento econômico apesar da crise da bolha imobiliária dos EUA que sacudiu todo o mundo em 2008.
Em 2017 voltei a assumir como Deputada Federal e também como presidente do PSDB Mulher Nacional, que já havia presidido quando criamos o segmento em 1998 com o apoio e a liderança de André Franco Montoro. Já em plena era digital, desenvolvi a Plataforma Digital PSDB Mulher, onde depositamos a história do partido, criando um espaço autônomo inovador para debates, cursos on line, e-books, aulas. Durante a pandemia de 2020 capacitamos 10 mil candidatas pelos meios digitais, e também pela plataforma conduzimos em 2021 os debates públicos das inovadoras prévias para escolha do candidato a presidente às eleições de 2022. Escolhemos, mas não tivemos. Sem candidato a presidente pela primeira vez desde a nossa fundação em 1988, por pouco não viramos "partido nanico". Mesmo assim produzimos as Bandeiras Eleitorais das Mulheres
Tucanas, uma agenda política para o Brasil feita por mulheres. Elegemos muitas.
Completados 30 anos de vida partidária, no verão tórrido de 2023 busquei o documento da minha filiação: 2 de abril de 1990. A filiação devo ao Deputado Federal Jorge Uequed, de saudosa memória, e por isso sou filiada pela sua Canoas. Valeu, Uequed. Com o fiasco das prévias de 2021, que não foram respeitadas por dois dos três candidatos, o partido havia terminado de perder sua alma. Desfiliei-me.
3. O novo ciclo
Neste 2024 celebrei minha primeira eleição e os 30 anos do Plano Real. O mundo havia mudado muito desde os anos 1990, e o Estado Democrático de Direito constituído em 1988 apresentava sintomas de desfuncionalidade e esgotamento. As instituições apresentavam evidentes falhas no cumprimento das suas finalidades básicas, fundamentadas na busca da Justiça e da Ética.
Inovação é a palavra-chave de nossos tempos de intensa e acelerada mudança tecnológica. Segui a vibe, e no Rio Innovation Week (RIW), realizado em julho, pude acompanhar conferencistas da minha geração, como Fritjof Capra (Tao da Física, de 1975, e O Ponto de Mutação, de 1982) que com seus 85 anos continua circulando pelo mundo debatendo o novo na Ciência e na ação prática. Foi um dos convidados de Marcelo Gleiser (A Simples Beleza do Inesperado, de 2016, e O Despertar do Universo Consciente, de 2024), coordenador de um dos palcos do Summitt. a quem acompanho na sua jornada internacional. Conectados a seu tempo, eles e outros atuam seguindo fundamentos e valores para a construção de uma sociedade através de convergirmos em uma nova agenda. Tempos para mais uma mudança. Mudar para continuar agindo.
Começo agora um novo ciclo. Há imensos desafios saltando à nossa frente, e uma infinidade de
oportunidades para a construção de uma nova agenda política. A ela. Grata à vida por tudo.
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